Editorial

Vós sois todos irmãos

No fim de semana que marca o renascimento de Cristo, um dos mais icônicos feriados católicos, inclina-se a falar sobre coisas boas, positivas ou mesmo sobre exemplos otimistas de vida, nos moldes do jornalismo que evita o choque factual. Entretanto, o feriado também é marco para o período que ficará evidenciado na história desta cidade como um dos trimestres mais violentos da última década. Entre janeiro e março, foram registrados 17 assassinatos, além de inúmeras tentativas em Bento Gonçalves, uma média de um por semana. No mesmo período de 2016 foram contabilizadas apenas seis mortes violentas. A situação mostra que a turística Capital do Vinho está sitiada, disposta em meio a uma guerra revanchista, com o tráfico de drogas e o controle de pontos estratégicos agindo como barricadas à evolução. Nossa cidade nunca passou por um momento tão delicado quanto este no setor de Segurança Pública.

A ausência ou ineficiência do Estado e a falta de políticas e ações eficazes de proteção e defesa da população favorecem a instalação do crime organizado e da violência sistemática, muito difícil de serem combatidos. A corrupção e a má gestão dos recursos públicos estão na raiz de muita violência contra o cidadão, como também a morosidade e ineficiência da Justiça, que sinalizam para a impunidade e passam a ideia de que o crime e a violência compensam. A complacência diante do ilícito e da pequena corrupção pode deixar marcas em certa cultura tolerante com a violência.

“Bento está disposta em meio a uma guerra revanchista, proposta e executada pelo tráfico de drogas”

Como solução para o problema da violência se aponta logo o endurecimento das leis e das políticas repressivas, a construção de presídios, a melhor preparação das polícias. Tudo isso, certamente, pode ter o seu peso, mas por si só não resolve a questão. Por outro lado, pretende-se explicar a violência a partir das persistentes injustiças sociais, da falta de ocupação e trabalho e das condições de vida pouco dignas de grande parte da população. Também nisso há muita verdade, sem justiça e solidariedade social nenhum país consegue acabar com a violência. E enquanto permanecer a sutil sinalização de que o crime compensa, haverá sempre muita violência.

Mesmo assim, o cessar da criminalidade dificilmente se concretizaria, ainda que fossem superados todos os fatores que costumam desencadeá-la. O meio social e os condicionamentos estruturais e culturais, apesar de contribuírem muito para moldar o ser humano e o seu comportamento, não os determinam, em absoluto. O determinismo não se aplica nem sequer a um ambiente saneado, de cujo meio também podem sair pessoas violentas. O ser humano é dotado de liberdade e, por isso, pode ser ajudado a fazer escolhas não violentas. E aqui entra o papel fundamental da educação.

Sem uma melhoria significativa na educação será difícil controlar a violência. Pensamos na educação formal e na informal, que envolve toda a sociedade. E não bastam escolas em número suficiente, é necessário melhorar a qualidade da educação, que também contemple a formação do caráter e proponha valores e atitudes social e eticamente aceitáveis, preparando cidadãos de bem, em lugar de indivíduos associais e candidatos aos presídios.

Onde a educação é de baixa qualidade, é preciso investir logo na construção de presídios.

Neste ano, a campanha da Fraternidade propôs mais uma boa reflexão, que não deveria ser subestimada. O Governo precisa investir mais e melhor na educação do senso moral das pessoas. Não se trata de moralismo, mas de educação do senso moral. O aparato repressivo e judicial deveria ser apenas um recurso extremo para impedir ou corrigir a violência. A partir da educação boa e da formação, as pessoas deveriam ser levadas a evitar a violência, não por coação externa, mas por uma lei interior assumida livremente, gravada na consciência. A fundamentação dessa moral é dada pelo lema da Campanha: “Vós sois todos irmãos”. O que não é aceitável que seja feito contra mim também não deve ser feito contra o próximo.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

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