Editorial

Verticalização responsável

Hoje é quase senso comum que a melhor organização do espaço urbano se dá em cidades com maior densidade demográfica, ou seja, aquelas que têm uma quantidade maior de pessoas morando em uma determinada porção da cidade. É certo que a concentração de pessoas em determinados pontos promove maior interação entre as diversas atividades urbanas, possibilita uma enorme economia de energia em deslocamentos de pessoas e cria inúmeros processos de sinergia de ordem social e econômica. No entanto, é muito importante ressaltar que promover a densificacão do tecido urbano não significa verticalizar as edificações da cidade num processo orientado exclusivamente pela visão do mercado imobiliário. Quem vende imóveis quer construir cada vez mais em menos espaço, com vistas ao aproveitamento econômico dos terrenos urbanos, principalmente naquelas porções das cidades consideradas “nobres” ou de elevado preço. E é para esse o norte que aponta a bússola do Plano Diretor de Bento Gonçalves.

A reunião do Fórum de Políticas Públicas que abordou a revisão do Plano de Bento Gonçalves na terça-feira, 19, apresentou mudanças na possibilidade de construção de prédios mais altos em sete bairros da cidade: Centro, Cidade Alta, Botafogo, Juventude, Humaitá, Licorsul e Universitário. Atualmente, a legislação permite que prédios com até 14 andares sejam construídos na Capital do Vinho. Com a mudança apresentada, esse número passaria para 16.

Nosso entendimento é que promover a densificação responsável de uma cidade é uma ação que exige uma série de contrapartidas que vão desde a formação de espaços públicos, passando pela oferta de redes de serviços públicos e pela distribuição racional dos edifícios sobre os terrenos de forma a garantir a salubridade das edificações. É preciso aperfeiçoar os espaços que hoje temos disponíveis e, assim, promover o desejado desenvolvimento. Para tanto, não nos resta alternativa senão o adensamento, ou seja, ocupar o mesmo espaço territorial, por mais pessoas, ao mesmo tempo. Sabemos quanto vamos crescer e quanto espaço temos. Adensar, seguramente significa verticalizar, mas não significa obrigatoriamente construir edifícios cada vez mais altos nem piorar a qualidade de vida na cidade. Existem formas de promover o mesmo adensamento em edifícios de menor altura do que aqueles que hoje produzimos. Inclusive, se adequadamente posicionados, esses novos edifícios poderão, na verdade, ajudar a cidade em termos de mobilidade.

Com o devido planejamento e visão de futuro, o adensamento pode responder a inúmeros problemas urbanos. Temos aí vários exemplos no mundo. A questão é considerá-los, adaptá-los e ajudar a melhorar a vida urbana. Afinal, todo problema enseja uma solução. Cabe ter boa vontade para encontrá-la. A verticalização não é ruim nem boa para a cidade, ela é parte da solução.
O Plano Diretor de Bento deve ter o compromisso com a densificação responsável da cidade. Dele devem derivar estudos que resultem em planos setoriais de mobilidade urbana, de criação de espaços públicos, de redes de serviços, de sistema de transporte público e, acima de tudo, do modelo de financiamento para a implementação de tudo isso.

O processo de verticalização gera excedentes econômicos que devem ser apropriados pelas cidades para o atendimento das demandas que a própria verticalização gera, e não ser transformado exclusivamente em lucro empresarial ou em lucro dos proprietários do solo urbano. Do contrário, continuará a valer a velha máxima: privatiza-se o lucro e socializa-se o prejuízo.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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