Editorial

Um gole de veneno por dia

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Mais de dois terços dos alimentos produzidos no país estão contaminados por esses agentes, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de 2018. Ainda assim, são usados aqui diversos ingredientes ativos que já são proibidos em outras partes do mundo como EUA, União Europeia, China e Canadá e, graças ao Congresso, no último mês, a lista de produtos de uso permitido aumentou.

As consequências da utilização de insumos químicos sobre o meio ambiente e a saúde da população brasileira são muito graves, e incluem ameaças como alta toxicidade, risco de câncer e de desenvolvimento de doenças neurológicas. Em Bento Gonçalves, como você verá nesta edição, a água que nos abastece possui 13 tipos diferentes de agrotóxicos, e destes, quatro tem potencial danoso ao organismo humano.

A água que abastece Bento tem 13 tipos diferentes de produtos químicos, dentre eles, quatro que podem causar males ao ser humano

Esse modelo de produção impôs à nossa agricultura o círculo vicioso do veneno. Nele, o solo, a sazonalidade, o clima e as características geográficas deixam de ser tratados como algo vivo e dinâmico e a agricultura passa a sofrer constantemente intervenções por substâncias químicas. Os efeitos colaterais, no meio ambiente e na saúde da população, do uso excessivo de agrotóxicos demonstram a necessidade de romper com esse ciclo.

A venda de agrotóxicos no país cresceu 315% entre 2000 e 2018, indicam os dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agropecuária (Sindag) divulgados no “Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva”. A tendência é que o uso desses insumos continue crescendo, já que o processo de produção agrícola — baseado na monocultura, que concentra a aplicação de cerca de 80% dos venenos agrícolas — é cada vez mais dependente deles.

Já passou da hora de haver diálogo entre parlamentares, sociedade civil e a Anvisa para alcançar um acordo sobre a retirada desses princípios ativos presentes em agrotóxicos utilizados no Brasil e que já são proibidos no resto do mundo. Ao mesmo tempo, estabelecer um prazo para que saiam de circulação e viabilizar a autorização de seus substitutivos que tenham classes tóxicas inferiores.

É necessário romper com a prática do veneno e concretizar a vontade da sociedade: alimentos saudáveis e seguros e produção sustentável e justa para quem consome e planta.

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