Editorial

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Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Elas são Marias, Fátimas, Lúcias, Helenas, Carolinas, Cássias… Pertencem a diferentes classes sociais, níveis intelectuais, atividades profissionais, cores e raças. Em comum têm apenas uma coisa: foram ou são agredidas por seus maridos ou namorados, pais ou padrastos de seus filhos. Escolheram esses homens para compartilhar a vida, formar uma família, dividir alegrias e tristezas, lutar com eles por uma vida melhor. Acreditaram que o amor que sentiam e dedicavam a eles os ajudariam a mudar. A cada dia, após uma briga ou agressão, um pedido de desculpas e a promessa de que aquilo não mais aconteceria, reacendia a esperança. Até o dia em que descobrem que a esperança era a fé em algo que jamais mudaria.

Por mais terrível que pareça, ainda hoje não é raro ouvirmos algumas pessoas dizendo que as mulheres gostam de apanhar, ou provocam seus maridos e por isso são tratadas dessa forma ou ainda que merecem apanhar, pois não fazem nada para mudar essa situação. E essa linha tênue de pensamento, onde o gênero busca força na humilhação, resulta em números catastróficos de violência contra a mulher.

Somente em Bento Gonçalves, foram registrados 1.261 atendimentos a mulheres agredidas por seus companheiros. Os dados do Centro Revivi projetam a cidade para a marca de, ao menos, três casos por dia. É preciso que levem a sério os riscos que correm e busquem ajuda o mais rápido possível. Felizmente, este dado tem mudado no decorrer dos anos e os acréscimos no número de denúncias são contabilizados anualmente.

Mulheres agredidas tendem a achar que não acontecerá nada pior e a situação está sobre controle

No Brasil, estima-se que cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos; o parceiro (marido, namorado ou ex) é o responsável por mais de 80% dos casos reportados, segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado. Apesar dos dados alarmantes, muitas vezes, essa gravidade não é devidamente reconhecida, graças a mecanismos históricos e culturais que geram e mantêm desigualdades entre homens e mulheres e alimentam um pacto de silêncio e conivência com estes crimes.

Na pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres, de 2014, 63% dos entrevistados concordam, total ou parcialmente, que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. E 89% concordam que “a roupa suja deve ser lavada em casa”, enquanto que 82% consideram que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Apesar dos bordões, não há nada de cômico nas afirmações.

Mulheres agredidas tendem a achar que não acontecerá nada pior e que a situação está sob controle. Entretanto é preciso ter cuidado, pois essa é uma falsa impressão. Procurar todos os recursos, tais como a proteção de algum membro da família ou de amigos, buscar ajuda psicológica, orientação jurídica e assistência social pode ser a melhor saída.

Superar o medo e a vergonha é uma situação muito difícil, mas denunciar e expor a situação é a única saída possível para a grande maioria das mulheres nessa condição. Certamente, ao olharem para dentro de si mesmas, perceberão o esfacelamento de sua personalidade, mas é preciso acreditar que o tempo é um grande aliado para a reconstrução da vida e que todos os recursos necessários estão lá, dentro de si.

Esse é, sem dúvida, o melhor caminho para que potenciais, qualidades, aspectos criativos, desejos, capacidade de tomar decisões e amor próprio desabrochem e floresçam, possibilitando, assim, que o brilho do sorriso, o respeito e a liberdade voltem a fazer parte de suas vidas.

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Cristiano Migon

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