Editorial

Roleta russa da 431

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Outro acidente, outras mortes, outra atualização de estatísticas. A ERS-431 tem se tornado sinônimo de irresponsabilidade e morte. Mesmo com a proibição na circulação de caminhões no trecho que liga Faria Lemos a BR-470, muitos motoristas ainda se arriscam nas curvas sinuosas da rodovia. O resultado: 14 mortes nos últimos nove anos. Os últimos levantamentos da ONU mostram que os acidentes de trânsito representam a principal causa de morte entre jovens de 15 e 29 anos no mundo.

Segundo os dados oficiais, mais de 1,2 milhão de pessoas perdem a vida em acidentes de trânsito todo o ano no mundo. O Brasil está no 4º lugar do ranking de países com maior quantidade de mortes ocasionadas por acidentes de trânsito, segundo pesquisa do Instituto Avante Brasil.

Mas a culpa é de quem? Do governo, por permitir tráfego em estradas perigosas, sem acostamentos e com pouca fiscalização? Do motorista, por ser imprudente ao transitar em uma rodovia conhecida por sua dificuldade condutiva? Das empresas, por permitirem, em diversas vezes, a condução de caminhões sem a devida revisão do equipamento? Da polícia, por não coibir tais ações? A culpa é de todos.

A rodovia que liga a Faria Lemos tem se tornado sinônimo de irresponsabilidade e morte

Assim como nós, pequenas engrenagens em um grande sistema falho, em sua essência, que visa um único objetivo, todos contribuímos, de forma direta ou indireta, para esta violência. Vivemos em um organismo que injeta cada dia mais a necessidade de sermos ágeis e pragmáticos no cotidiano. Pouco tempo para pensar e muito menos para agir. Tudo isso respinga nestas mortes. Tudo vivifica o sofrimento.

A via é uma das principais artérias para o escoamento da safra de uva e outros produtos da região, então a inutilização está fora de cogitação, até porque implicaria em desperdício de recursos públicos. Como parece que o local foi talhado sem pensar muito na segurança dos condutores, o mínimo que poderia ser feito é a realização de um acostamento, ou mesmo caixa de frenagem, a fim de minimizar os efeitos de uma possível falha mecânica. A alternativa também já pautou a agenda de vereadores da cidade. Infelizmente, parece que o grande número de vidas perdidas não tem sensibilizado os órgãos competentes para modificar a estrutura do local.

É preciso reconhecer que as estatísticas de mortalidade no trânsito não apontam tão somente para algo muito além do número de mortes, mas também para a forma desumana de sociabilidade nas vias públicas deste país, para a fragilidade dos mecanismos de fiscalização e gestão do trânsito brasileiro, da qualidade da fabricação e segurança de nossos veículos e principalmente, para o padrão de atendimento aos acidentados e das vítimas fatais de trânsito deste país.

Nós só deixaremos de ser um país pobre, ignorante, corrupto e violento no trânsito quando suas instituições essenciais deixarem de seguir a lógica do capitalismo selvagem, extrativista e concentrador, para se alinhar aos países do capitalismo evoluído e distributivo, que contam em média com cinco mortes para cada 100 mil habitantes.

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