Editorial

Repensar ou remediar

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

As últimas semanas evidenciaram uma série de elementos estruturais preocupantes quanto à infraestrutura e as dependências dos brasileiros nos modais de transportes. Bastaram cerca de cinco dias de paralisação dos caminhoneiros para por a prova todos os valores de convivência e cidadania, expondo um cenário polarizado, violento e perigoso no País, assim como em Bento Gonçalves e região.

À parte da análise de mérito quanto à validade, ou não, das manifestações iniciais, ou mesmo das ramificações posteriores, que chegou a cogitar intervenção militar tal qual a deposição do presidente da República, a greve trouxe a tona o que há de mais próximo ao sentimento pernicioso que reside dentro de boa parte dos seres humanos. Mesquinharia, intolerância, ganância e impaciência tomaram postos, eclodindo conflitos e agressões entre favoráveis e contrários à paralisação. Uns veem na desorganização e ruptura, uma oportunidade para reconstruir, outros não. O que faltou foi o respeito pelo contraditório.

Mas, como já alertava Saramago, “o caos é uma ordem por decifrar”. Acreditamos que neste prisma, o que pulsa entre o espectro de cores é a necessidade de evoluir. A barateza nos investimentos em estradas e transportes viários, adotada pela totalidade dos gestores desde os anos 50, resultou em um modelo exageradamente dependente das rodovias. Consequentemente, pendente aos anseios de classes que conduzem o modal.

Falta de investimento e visão levou o País a ser dependente do modal rodoviário

De acordo com uma análise da Agência Nacional dos Transportes Terrestres, além de a magnitude da estrutura ferroviária ser a mesma desde a década de 1980, a velocidade dos trens caiu, prejudicando a utilização e eficiência do sistema. Da mesma forma, o volume de investimento público nos transportes nas últimas décadas é grotesco. O montante, que era de 2% do PIB em 1970, seguiu trajetória descendente com o passar das décadas. No ano passado, não passou de 0,16%. Faltam, portanto, recurso, planejamento e visão estratégica para que o Brasil não fique refém dos gargalos do sistema rodoviário e veja as oportunidades de evoluir sucumbirem diante desta exagerada dependência.

Nesta semana, o presidente se pronunciou sobre o assunto. A intenção do governo é ampliar os modais de transporte de carga no país para prover alternativas para uma paralisação como a iniciada pelos caminhoneiros há duas semanas. Com caminhões parados e trechos em rodovias bloqueados, muitas cargas estão encalhadas nas estradas. Em discurso, Temer evitou fazer críticas à categoria. Adotou um discurso conciliador, ressaltando que procurou adotar diálogo durante os protestos, o que, cá entre nós, não foi muito bem aceito.

A falta de investimento e visão estratégica ao longo de muitas décadas levou o país a ter 65% das cargas transportadas por caminhões. Se este dado não mudar, e as classes se organizarem de forma nacional, esta greve pode ser o estopim para algo tremendamente maior. Agora, cabe ao governo repensar, ou remediar.

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