Editorial

Recorde, outra vez

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Os teóricos do século 18 profetizavam que não é o tamanho do castigo imposto que atua como freio da criminalidade e sim a certeza de que a punição não virá. A realidade brasileira merece ser estudada com mais acuidade, pois numa prévia pesquisa sobre a violência, já ficou apontada a profundidade do iceberg. Leis, o Brasil tem até demais, porém não se apresentam intimidativas e sim convidativas para a prática de vários crimes, quer seja individualmente, quer seja em grupo, de forma organizada. Convém lembrar o aconselhamento de José Marti, poeta cubano, “os que pretendem modificar a realidade devem, antes de mais nada, reconhecê-la como ela de fato é”.

O tema da violência urbana se exibe, há muitos anos, como se fosse a última grife e rende dividendos inesgotáveis de notícias e comentários. Todos os dias, a violência atropela os acontecimentos e vem estampado na primeira página. É frustrante ver a escalada estarrecedora de crimes de conteúdo explícito de violência continuar a crescer sem limites e a sociedade acuada, com o torniquete de sua liberdade apertado ao extremo.

Atingimos nesta semana o dobro das mortes violentas registradas até agosto do ano passado

E nesta mescla de violência, medo e receio, Bento Gonçalves continua no centro da mira da criminalidade. Atingimos nesta semana o dobro das mortes violentas registradas até agosto do ano passado, com pouca perspectiva de redução no quadro.

A evolução ou até mesmo a revolução da violência, ocorreu de forma rápida, num crescendo previsível de antever dias piores. A sociedade, que aceita regras e normas de conduta, por sua vez, na omissão Estatal, foi, por sua própria iniciativa, assimilando as novas regras do jogo e procurou conviver com a violência. Não adormecida em berço esplêndido, mas a exigir que a violência se mantivesse em nível razoável, que já seria um resultado satisfatório.

Somente políticas de médio e longo prazo, como citado, em outras áreas além de mais policiamento, prisões e mudanças nos códigos penais, tornando-os mais rígidos e sem tantos recursos e recursos jurídicos, farão cair os números da criminalidade. O último morto em Bento Gonçalves tinha apenas 20 anos. As crianças deveriam ser prioridade absoluta no país. Os adolescentes são o nosso futuro mais próximo. Os índices cada vez mais crescentes de violência contra esses grupos nos mostram não só um presente, mas também um amanhã muito tristes. Para enfrentar esse problema, é preciso construir uma nova cultura, sem violência, em todas as dimensões da nossa convivência social. Enquanto não alcançarmos essa meta, os números de assassinatos seguirão em recorde, ano após ano.

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