Editorial

Real e imoral

A ONG britânica Oxfam divulgou um relatório mostrando que apenas oito bilionários – Bill Gates, fundador da Microsoft; Amancio Ortega, dono da Zara; Warren Buffett, megainvestidor; Carlos Slim, magnata das telecomunicações; Jeff Bezos, fundador da Amazon; Mark Zuckerberg, fundador do Facebook; Larry Ellison, diretor-executivo da Oracle; e Michael Bloomberg, empresário e ex-prefeito de Nova York – têm mais dinheiro que a metade mais pobre de toda a população mundial. O objetivo do estudo, que já foi feito em outras ocasiões, era chamar a atenção para a desigualdade no globo. Em território nacional, dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2016, 1% dos trabalhadores com os maiores rendimentos recebia por mês, em média, R$ 27.085 – o equivalente a 36,3 vezes mais do que a metade da população com os menores rendimentos, que ganhava, em média, R$ 747. A massa de rendimento médio mensal real domiciliar per capita alcançou R$ 255,1 bilhões em 2016. A parcela dos 10% com os menores rendimentos da população detinha apenas 0,8% do total, enquanto os 10% com os maiores rendimentos ficaram com 43,4%.

Globalmente, a desigualdade vem caindo – a preocupação deveria ser com os países onde ela cresce. Independentemente disso tudo, é um fato que há pessoas vivendo com fortunas inimagináveis ao cidadão comum enquanto há muitos na miséria completa. A turística Capital do Vinho é exemplo vivido desse desassossego.

Enquanto bairros como Planalto, Cidade Alta, São Bento, São Francisco e Santo Antão registram famílias com altas rendas per capita, outros como Municipal, Conceição, Eucaliptos e Zatt agrupam casas humildes, baixo índice de educação e saneamento, além de concentrarem a maior parte da violência urbana e disparidade social. A questão é: o que fazer com essa informação?

“Elimine a miséria e dê condições para que todos possam prosperar, pouco importará o número dos muito ricos”

“Desigualdade”, em si, é um conceito escorregadio. Para usar um exemplo extremo, países onde todos são miseráveis são menos desiguais que países prósperos, onde há ricos e pobres. Nem por isso deveríamos ver aqueles como um ideal a ser buscado. Isso nos leva a refletir se é prioritário combater a desigualdade ou a pobreza – essa escolha é que balizará quais políticas públicas um país ou município colocará em prática.

Uma reação comum ao cenário é considerar imoral que existam Zuckerbergs e Bloombergs enquanto há milhões de miseráveis. Mas a verdadeira imoralidade é a mera existência de milhões de miseráveis – independentemente da existência de bilionários – e é no combate à pobreza que sociedade e poder público deveriam se engajar com mais força, inclusive com a participação dos mais ricos. A obrigação moral de que os membros mais prósperos de uma sociedade trabalhem para aliviar o sofrimento dos pobres é um preceito milenar, mas que infelizmente se perdeu nos últimos tempos – não sem culpa daqueles governantes que se dispuseram a tomar para si todo o trabalho de assistência social, amortecendo as consciências e levando o cidadão a pensar que os pobres são problema do Estado, e é para o Estado ajudá-los que se paga impostos.

Contudo, uma sociedade que optasse por isso estaria dizendo às pessoas que elas só podem prosperar até certo ponto; dali em diante, seu patrimônio é imoral e nem deveria lhe pertencer. É fácil imaginar como esse tipo de política amordaçaria o espírito empreendedor e a inovação que criam riqueza – riqueza esta, aliás, que não beneficia apenas um indivíduo, mas toda uma coletividade, por exemplo ao gerar empregos, melhorar a produtividade e promover desenvolvimento. Tolher, em nome do combate à desigualdade, essa criação de riqueza só porque ela fará alguns poucos milionários é mirar no problema errado e perpetuar a situação. Já numa sociedade que realmente priorize a luta contra a pobreza, elimine a miséria e dê condições para que todos possam prosperar, pouco importará o número dos muito ricos.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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