Editorial

Pra parede!

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Nesta edição você vai conhecer a história de fantasmas. Pessoas sem nome, sem histórico e já sem esperança; pré-criminalizadas por, dentre tantas possibilidades, escolher o local errado para residir. Policiais, traficantes de drogas, trabalhadores, um Estado de Guerra declarado no Residencial Novo Futuro que aflige, atormenta e desgraça o Estado Democrático de Direito. Afinal, há um limite lógico entre razoabilidade, proporcionalidade e segurança pública? No Novo Futuro, essa linha já foi rompida há certo tempo, e poucas pessoas parecem se importar.

A violência é conceito por demais conhecido, vivenciado pelas pessoas ora como agentes, ora como vítimas. De um modo geral, consiste basicamente em uma ação direta ou indireta, destinada a limitar, ferir ou destruir as pessoas ou os bens. No aspecto jurídico, o dicionário define o termo como o “constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação”. Assim, um ato pode ser caracterizado como violento quando causar dano a terceiros, usar força física ou psíquica, ser intencional e ir contra a vontade de quem é atingido. Pode ainda ser classificada como social ou urbana, psicológica, moral, física e sexual.

Segundo o relato dos moradores, somente na tarde de sábado, 20, oito portas foram arrombadas a chutes por membros do Pelotão de Operações Especiais (POE) e reforços da Patres, de Porto Alegre. Dezenas de pessoas, entre elas crianças, foram revistadas e lares revirados. Tudo isso sem mandados judiciais, no melhor estilo “terra sem lei”. O resultado da operação? No campo material, ninguém foi preso e nada foi apreendido. No psicológico, muito estrago. Este é apenas um, dentre dezenas de relatos expostos ao jornal.

Existem agentes exemplares na Brigada, mas também existem aqueles que mancham
a honra de vestir a farda policial

À parte de toda a possível ilegalidade realizada pelos agentes de repressão, a situação pede uma reflexão sobre a eficácia das medidas adotadas pelos policiais, tal qual sobre a responsabilidade do Estado ante a geração de violência. Humilhar pessoas em frente aos seus familiares, agredir e desrespeitar o direito de inviolabilidade de seu lar, independente de ter histórico criminal ou não, é um atentado direto à democracia, aos direitos humanos e ao Brasil, como nação soberana.

Bento Gonçalves padece pela ação criminosa, mas isso precisa ser tratado com inteligência, não força bruta. Quatro jovens foram executados no Novo Futuro só em 2018, e em meio a este banho de sangue não há certezas, fica apenas o temor pelo amanhã.

O Residencial é contemplado com histórias de recuperação social, de batalha por dias melhores, de crianças que sonham em não serem julgadas apenas pelo local em que vivem. Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele. Nós, como sociedade, precisamos enxergar, o Estado precisa compreender, e a polícia precisa evoluir. Existem agentes exemplares na BM da região, tanto no comando, quanto no patrulhamento. As atitudes de poucos não podem ser a força motriz para criminalizar todo o batalhão, mas, da mesma forma, os que honram vestir a farda bege e verde não podem ser coniventes com as atitudes deste desgarrados. Precisamos, como sociedade, ser vigilantes e corajosos para dar um basta nesta situação, denunciar tais atitudes e defender a letra fria da Constituição Brasileira.

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