Editorial

Pesadelo desperto

Seja através de financiamento direto com construtoras, financiamento junto a bancos ou mesmo através de programas habitacionais do Governo Federal, como “Minha Casa Minha Vida”, o sonho da casa própria, muitas vezes, torna-se pesadelo. Além dos possíveis problemas estruturais, materiais de qualidade inferior, caixas d’água contaminadas, aquecedor solar que não funciona, áreas públicas não entregues, os frequentes atrasos na entrega de obras e dos abusos nos contratos também assombram os futuros proprietários.

Um destes cenários de desacordo entre o contratado e o entregue tem Bento Gonçalves como morada. O Edifício Fiorenzo, imponente construção disposta no coração da cidade, deveria estar de portas abertas aos proprietários no final de 2010. Contudo, oito anos após o prazo final para conclusão, o que se vê no local é um extenso tapume disposto no limite da calçada, sujeira e muito por se fazer.

A situação é inquietante, uma vez que se colocarmos em perspectiva a dificuldade do brasileiro em financiar um imóvel com poucas possibilidades de subvenção no mercado, sem falar nos altos juros, alinhado a necessidade de, talvez, poder morar no próprio investimento enquanto paga pelas prestações, evidenciamos a gravidade do ocorrido.
Como agravante, o relato dos moradores nos conduz para um grande “dar de ombros” por parte da construtora, que além de não cumprir com suas obrigações legais, firmadas em contrato, se opõe a negociar com os proprietários, que buscam a possibilidade de quitar a construção dos próprios apartamentos investindo novas quantias.

O caso beira o inacreditável, pois, mesmo que tentemos dispor sobre a mesa os possíveis contrapontos da empresa para o fato – que preferiu não se manifestar, embora os proprietários indiquem que a empresa utilizou o capital destinado ao Fiorenzo para iniciar outra construção – nada justificaria a negativa, uma vez que os próprios compradores se ofereceram para concluir a edificação – que custaria cerca de R$ 1,5 milhão.

Pois bem, como era de se esperar, o caso foi para na justiça e, atualmente, os tribunais têm entendido que, perante o consumidor, todos possuem responsabilidade por esses danos, pois quem financia também participa do empreendimento, inclusive designando profissional que deve fiscalizar a execução da obra, o desempenho do projeto e a devida aplicação do capital financiado. Torcemos por um desfecho proveitoso às partes prejudicadas.

O que fica é a lição de credibilidade. Procure sempre negociar com uma incorporadora ou construtora séria no mercado. Visite obras já entregues por ela, a fim de apurar a qualidade construtiva e de acabamento, bem como pesquise reclamações nos órgãos de defesa do consumidor da região e veja se possui certificados de qualidade (ISO), além de verificar as certidões judiciais para saber o tipo de ação em que ela eventualmente figure como ré.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

editoria@jornalsemanario.com.br

Deixe um comentário