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“Como está não dá para ficar”

Ranieri Moriggi
Escrito por Ranieri Moriggi

Paulo Caleffi falou no CIC-BG sobre interferência do setor público na iniciativa privada

 

Em uma palestra objetiva – mas que suscitou amplo debate pelos questionamentos levantados – Paulo Caleffi defendeu, no Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), uma aproximação entre representantes políticos e governantes para evitar a interferência excessiva do Estado na iniciativa privada. “Se eles (governantes) não souberem as reivindicações da sociedade, será impossível administrarem. E até quando? Até quando nós não tivermos o diálogo suficiente com aqueles que nós elegemos”, disse o diretor de Gestão da Transportes Bertolini Ltda.

A palestra “Quanto (d)o Poder Público Interfere na Iniciativa Privada” foi cercada de exemplos assim. Para Caleffi, é necessário sabermos cobrar dos administradores, e para isso é importante termos interlocutores que levem as necessidades da sociedade aos governantes – caso de entidades ligadas à indústria e ao comércio, por exemplo – e que cobrem dos governantes – caso de políticos que representem uma região.

Uma das reivindicações que apareceram já para essas eleições, de órgãos como a Confederação  Nacional das Indústrias (CNI), afim de melhorar a administração, foi a de reduzir a burocracia de tributos, e não o tributo em si. “Qualquer empresa perde 15% do seu tempo empenhada em administrar a tributação, porque está sempre mudando. Isso é interferência do poder público sobre iniciativa privada”, comentou. “Somente quando nós tivermos interlocutores para poder dialogar com eles sobre nossas reivindicações entregues antes de se elegerem é que vamos ser atendidos”, comentou.

Caleffi utilizou a recente paralisação dos caminhoneiros para ampliar o conceito de sua palestra. Segundo ele, para recuperar as perdas da Petrobras, o governo utilizou uma política errônea de reajuste de combustíveis – com base no barril internacional do petróleo -, ocasionando sucessivos aumentos e acarretando na paralisação dos motoristas. Mesmo sabendo da iminente greve, o governo protelou a situação, causando paralisação na indústria e consequente falta de consumo, prejudicando ainda mais a economia.

Com o desabastecimento da sociedade, o governo resolveu agir, apresentando uma tabela de frete baseada em eixo de caminhão e no congelamento do preço do óleo diesel – deixando fora a gasolina. Para Caleffi, como o Brasil produz 80% de seu petróleo, essa política de preços só poderia ter sido adotada em cima de 20% do combustível que vem de fora. “Não tínhamos uma base econômica para isso, e transferiram para a sociedade um problema que ela não criou (as perdas da Petrobras), isso é interferir”.

Além disso, a nova tabela de frete onerou produtos como o feijão em 30%. “São itens que interferem no setor privado, causando menos produção, menos consumo, menos emprego. Como está não dá para ficar. Mas essa interferência vai ser até quando nós escolhermos mal os nossos governantes. Quando tivermos condições de ter acesso aos políticos, vamos ter certeza que vamos diminuir o quanto o governo interfere em quem produz, que é exatamente vocês (empresários da plateia)”.

Falta de sintonia é prejudicial à sociedade

Ao abordar o tema da palestra, o presidente do CIC-BG, Elton Paulo Gialdi, declarou que o assunto tem sido tratado de forma incisiva na casa. Para ele, a relação público e privado, quando não é construída de forma saudável, acarreta prejuízo para a sociedade. “Isso mina a competitividade do setor produtivo. Além disso, burocratiza o dia a dia de quem quer empreender, gerar renda e empregos”, analisou. Gialdi elogiou a postura de Paulo Caleffi, que decidiu retornar à vida política, pois entende que os empresários precisam estar engajados nas questões que definem o futuro do país. “Sua atitude é muito nobre porque você está se doando por uma causa coletiva”, disse.

O presidente do CIC-BG também fez uma ponderação positiva à classe, afirmando que o empresariado local tem participado mais ativamente das questões políticas. Tanto que elegeu, há poucos dias, a melhoria na gestão pública como um dos itens elencados para o Caderno de Propostas da Agenda 20/20 que será entregue ao futuro governador do Estado. “Não podemos mais ser só espectadores passivos do extermínio do empreendedorismo e da iniciativa privada em nosso país. Temos que ter representantes que simbolizem os interesses públicos e coletivos, que tenham uma visão honesta e republicana da forma de fazer política e de administrar os bens que o Brasil lhes empresta”.

 

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