Editorial

Passo em falso

A Constituição federal de 1988 estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado. Todavia, num país com uma população de 207 milhões de habitantes, 8,5 milhões de quilômetros quadrados e 5.570 municípios, torna-se extremamente complexo organizar e manter um sistema de saúde para atender tantas pessoas com variáveis sociais, políticas e geográficas tão diferentes entre si.

Como se não bastasse a escassez de recursos para a saúde pública, da qual dependem as camadas mais carentes da população, o poder público ainda gasta mal aqueles destinados a esse setor de importância vital. A existência de 1.158 unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), construídas em todo o País, mas nunca colocadas em funcionamento, com base em dados do Ministério da Saúde, é mais um exemplo desse mal de que sofre a administração pública há muito tempo.

E por consequência de todo este caos público, quem paga a conta na ponta do sistema são os municípios, que precisam cada vez mais bolar alternativas aos percalços dispostos pela União no caminho ao atendimento à população. E nesse sentido, em junho desse ano, toda a imprensa estadual noticiou, com pompa e destaque, a união de esforços de 23 municípios da região dos Vinhedos e do Basalto, a fim de auxiliar os custos para realização de procedimentos de alta complexidade no Hospital Tacchini. A projeção era de que os municípios que defendiam Bento Gonçalves como referência gastariam cerca de R$ 500 mil por mês para complementar o valor dos procedimentos, o que chegaria a R$ 6 milhões por ano.

Era, defendiam e gastariam, todos no passado, pois, de acordo com o Secretário de Saúde de Bento, a negociação não surtiu o efeito desejado e os municípios recuaram em suas obrigações. Faltou sensibilidade. A justificativa, por óbvio, passa pela crise político-econômica na qual o país está imerso desde 2014.

Há poucos dias o Semanário expôs a situação em que se encontram as filas de espera para cirurgias eletivas em Bento Gonçalves, que em sintonia com o que ocorre nos demais municípios do país, não para de crescer. De modo lamentável, o que podemos afirmar com clareza é que este cenário tende a permanecer por muito tempo, pois sem engajamento, comprometimento e, sobretudo, fidelidade e sensibilidade, a região não será referência em cirurgias em qualquer nível de complexidade. Há muito se fala que não há mais espaço para aguardar por auxílio do Governo Federal e muito menos Estadual. A iniciativa precisa partir de baixo, dos municípios, entretanto, esse duro golpe na saúde pública consuma o que mais receávamos. Nós também precisávamos dar esse passo.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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