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Outubro Rosa: pacientes atentos aos seus direitos

Ranieri Moriggi
Escrito por Ranieri Moriggi

Criado nos Estados Unidos nos anos 90 e no Brasil, em 2008, o movimento Outubro Rosa tem como objetivo incentivar o exame de mamografia para o diagnóstico precoce do câncer de mama. De acordo com a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), neste ano, a campanha nacional, que chega em sua décima edição, quer conscientizar pacientes com câncer, além de familiares, amigos e colegas sobre a importância em estar ao lado da pessoa durante o processo, bem como, chamar a atenção para a necessidade de conhecer os direitos sociais que garantem acesso ao diagnóstico e tratamento, gratuitos, via Sistema Único de Saúde (SUS).

Em um ano, 60 novos casos foram diagnosticados em Bento. Foto: Reprodução

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), em 2017, cerca de 960 mil novos casos devem ser diagnosticados no Brasil. Deste número, aproximadamente 60 mil são de câncer de mama. Em Bento Gonçalves, de acordo com levantamento do Instituto Tacchini de Pesquisa em Saúde, 60 novos casos da doença na mama são diagnosticados anualmente pela equipe da casa de saúde. Conforme a gerente do Instituto, Juliana Giacomazzi, “a sobrevida global por câncer de mama em 5 anos é de 85,9%”, pontua.

Entre as atividades realizadas pelo Instituto, visando ampliar o assunto sobre o problema, está a realização de três simpósios (Bento Gonçalves, Veranópolis e Guaporé) com o tema “Cenário do câncer de mama na região” para debater e orientar profissionais que atendem na rede pública. “Participaram profissionais e gestores de saúde de 23 municípios da região atendidos pelo Tacchini”, explica Juliana.

Parcerias

No ano passado, o hospital Tacchini havia encaminhado um projeto ao Instituto Susan G. Komen, nos Estados Unidos, visando arrecadar fundos para a realização de uma pesquisa, a fim de elucidar a alta prevalência do câncer de mama na microrregião. Conforme Juliana, a iniciativa não foi aprovada. “A justificativa foi de que se tratava de um projeto específico em âmbito regional”, explica.

No entanto, parte da proposta está sendo desenvolvida pelo hospital, através de uma ficha de triagem de entrada, aplicada nos pacientes com câncer, incluindo questionamentos sobre fatores de risco, hábitos e costumes de risco para a doença.

“Não dá pra parar de viver por causa dessa doença”

Prática de artesanato foi o passatempo escolhido por Miriam para tentar ocupar sua mente. Foto: Ranieri Moriggi

Superar os obstáculos que o câncer coloca na vida. Esse é o lema utilizado pela artesã Miriam de Carvalho Carraro, 54, que há 12 anos descobriu a doença na mama direita. Sua história é um aprendizado, afinal, além do tratamento para combater o problema, ela precisou seguir firme para manter a família unida. Não fosse o suficiente, há dois meses, ela precisou buscar nova ajuda, pois sentiu uma forte coceira no seio esquerdo. Após exames, foi constatado o aparecimento de dois nódulos, com 19 ramificações, que já estavam se espalhando pelo braço direito. Conforme Miriam, graças a rapidez em buscar ajuda médica, ela foi submetida a uma cirurgia, controlando a situação. Ela afirma que foi uma fase difícil. “A palavra câncer, muitas vezes, te remete a uma sentença de morte. Quando você começa a ir atrás de diagnósticos, tratamentos, parece que vai enlouquecer. Ao receber o resultado, eu caí dentro de um buraco. Foi muito difícil”, comenta.

Ao saber do retorno da doença, Miriam diz ter entrado em pânico, pois, segundo ela, um emaranhado de dúvidas começa a surgir junto com o problema. “Até ali era eu quem cuidava de tudo, da casa, marido, sogros, filhos… Eu me preguntava: e agora? O que eu vou fazer?”, indaga. Após o novo diagnóstico, a artesã realizou nove sessões de quimioterapia e sofreu os efeitos colaterais do tratamento. “Foi um processo doloroso, pois eu não implantei o cateter para fazer as sessões. Eu aguentei firme e forte, com aplicações diretamente no braço. Eu quis. Daquele dia em diante eu me fortaleci, porque eu queria viver, ver meus netos nascerem e minha família ficar unida. Eu disse: quem vai morrer nessa história é o câncer”, afirma.

Segundo Miriam, o apoio familiar foi fundamental no combate à doença. Ela garante que sem o suporte recebido ao longo do tratamento, ela não estaria mais aqui e não conheceria a sua neta Laura, de três anos. “Eu tenho um marido ótimo, filhos maravilhosos e hoje minha netinha. Eu só pude viver tudo isso, graças a eles e ao meu esforço em seguir de cabeça erguida na luta”, ressalta.

Além da família, Miriam se apegou a fé. Devota de Nossa Senhora do Caravaggio, um dia antes de sua última cirurgia foi até o santuário, em Farroupilha pedir proteção. “A minha fé é o que me move. Entrei no santuário e não falei nada. Olhei para a imagem de Nossa Senhora. Eu não rezei, só fui pedir que ela jogasse o seu manto sagrado sobre mim e, em outra ocasião eu voltaria para conversar com ela. Três meses após a cirurgia eu retornei para agradecer”, lembra.

Outra atividade que ocupa a mente de Miriam é o artesanato. Atualmente, ela passa horas pintando, desenhando, no desejo de esquecer o problema. “Não dá para a gente ficar o tempo todo pensando coisa ruim. Eu me ocupo dessa forma. Quando bate o medo, a insegurança e começam a vir ideias ruins no meu pensamento, eu vou pro meu atelier e trabalho. O paciente que faz tratamento contra o câncer precisa ter alguma ocupação. Se você não tiver algo, o problema volta com tudo. Não dá pra parar de viver por causa dessa doença”, afirma.

Para o futuro, ela espera que a cura do câncer seja descoberta, sem deixar de viver intensamente o presente. “Eu quero aproveitar essa nova chance, viver o agora, da melhor maneira possível. Quero ser feliz. O amanhã eu não sei, eu estou vivendo o agora, com a minha família”, finaliza.

Pessoas com câncer têm direitos especiais na legislação brasileira

Saque do FGTS
Quem tiver a doença ou que tenha dependente portador poderá fazer o saque do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Dentre as documentações exigidas está o atestado médico contendo diagnóstico no qual relate as patologias.

Saque do PIS/PASEP
O PIS e o PASEP podem ser retirados pelo trabalhador que tiver neoplasia maligna, na fase sintomática da doença, ou que possuir dependente portador de câncer.

Auxílio Doença
Tem direito ao benefício, independente do pagamento de 12 contribuições, desde que esteja na qualidade de segurado. A incapacidade para o trabalho deve ser comprovada por meio de exame realizado pela perícia médica do INSS.

Aposentadoria por invalidez
Recebe o benefício, independente do pagamento de 12 contribuições, desde que esteja na qualidade de segurado. Terá direito a este acréscimo o segurado do INSS que necessitar de assistência permanente de outra pessoa. O valor da aposentadoria por invalidez poderá ser aumentado em 25% nas situações previstas em decreto.

Tratamento Fora do Domicílio (TFD)
O TFD pode envolver a garantia de transporte para tratamento e hospedagem, quando indicado. O benefício é concedido, exclusivamente, a pacientes atendidos na rede pública e referenciada. Nos casos em que houver indicação médica, será autorizado o pagamento de despesas para acompanhante.

Isenção de impostos na compra de veículos adaptados
O paciente é isento destes impostos apenas quando apresenta deficiência física nos membros superiores ou inferiores que o impeça de dirigir veículos comuns.

Acesso à Justiça
A lei garante diversos direitos aos pacientes com câncer, como acesso à medicamentos e outros procedimentos terapêuticos e de diagnósticos, isenção de impostos, benefícios previdenciários e relacionados a transportes.

Isenção do Imposto de Renda na aposentadoria
Estão isentos do imposto de renda relativo aos rendimentos de aposentadoria, reforma e pensão, inclusive as complementações. Para solicitar a isenção a pessoa deve procurar o órgão pagador da sua aposentadoria (INSS, Prefeitura, Estado etc.) munido de requerimento fornecido pela Receita Federal. A doença será comprovada por meio de laudo médico.

Liga de Bento prepara ações

Com o tema “Cuidar-se é uma luta de todas”, a Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves engaja a comunidade na campanha do Outubro Rosa 2017. A ideia é valorizar a luta feminina contra a doença, destacando a importância da conscientização sobre o combate ao câncer de mama por meio da consulta regular a um médico especialista, a prática de estilos de vida saudáveis e o autoconhecimento. Conforme a presidente da entidade, Maria Lúcia Severa, os avanços na luta contra a doença só podem ser alcançados com ações de informação e conscientização da importância do diagnóstico precoce. “Esse é um momento para derrubarmos mitos e desvendarmos tabus. Por isso, acreditamos que a informação e conhecimento são fundamentais para a conquista de resultados cada vez mais expressivos. A medicina evoluiu muito e oferece diversos tratamentos com menores sequelas. É importante que a mulher conheça o seu próprio corpo, através do autoexame, mas é imprescindível que faça consultas médicas, exames clínicos regularmente e faça a mamografia. O diagnóstico precoce, possibilita um tratamento mais eficaz e consequentemente uma melhor qualidade de vida” explica.

Mastologista José Luiz Pedrini palestra no dia 30 de outubro. Foto: Reprodução

Neste sentido, a Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves, prepara diversas ações durante o mês. Destaque para a blitz de conscientização agendada para o sábado, 7 de outubro, e para dois encontros técnicos que ocorrem nos dias 10 de outubro, reunindo os especialistas em mastologia Ricardo Boff e Lourenço De Carli, com mediação de Cídia Mazzocatto, abordando o tema: Mitos e verdades sobre o câncer de mama e a outra ação e no dia 30 de outubro, quando o especialista José Luiz Pedrini, vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia, traz o tema: Celebrando a vida: Onde queremos chegar e como fazemos para chegar lá? . As atividades vão ser realizadas no auditório do CIC-BG, a partir das 18h, com inscrições gratuitas – mas as vagas limitadas.

Sobre o autor

Ranieri Moriggi

Ranieri Moriggi

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