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Os desafios de quem convive com o HIV

Ranieri Moriggi
Escrito por Ranieri Moriggi

Aos 25 anos, Geovanni descobriu ser portador do vírus e decidiu fazer da sua história, ferramenta para a prevenção

Na década de 80, ser infectado pelo vírus HIV era mortal. Muito pouco se sabia sobre a doença, além de ser algo tão incomum e carregado de preconceitos. Tudo era novo e ninguém sabia como tratar o problema. Os anos passaram. Estudos e pesquisas evoluíram rapidamente. Hoje, em pouco mais de 20 minutos, o paciente já sabe se é portador ou não, através de exames sofisticados e ágeis. Além das novas descobertas, ciência e sociedade passar a lidar com a Aids de maneira diferente. O início, onde o terror permeava, deu espaço aos avanços na medicina e, com eles, o salto na sobrevida dos infectados. No entanto, falar de HIV ainda é considerado um tabu, principalmente dentro das casas. Geovanni Henrique de Lima, 25, descobriu ser portador do vírus em 2014 e, a partir daí decidiu levar a sua história para outros jovens, mostrando que a prevenção é o melhor remédio, porém, viver com a doença não pode ser levado como uma sentença de morte.

Geovanni descobriu ser soropositivo em 2014, após exames. Foto: Reprodução

Natural de Ceres, estado de Goiás e residente na Serra Gaúcha, Lima passou por momentos complicados ao receber a notificação de que era soropositivo. “No momento eu pensei que iria morrer, ou ter uma vida limitada”, afirma. Ele lembra que o problema apareceu após a realização de exames de rotina. “Eu sabia muito pouco sobre HIV/Aids, geralmente somente o superficial do que nos é ensinado nas escolas: que Aids mata”, lembra. O jovem relata que ao receber a notícia, preparou a família para um possível resultado positivo. “No primeiro resultado eu contei à minha mãe que um exame tinha dado alterado para o HIV e que tinha um grande risco de ser um resultado positivo”, destaca.

A todo momento, a principal preocupação de Geovanni era buscar apoio para manter a sua saúde estabilizada. No entanto, contar aos familiares e amigos a sua nova situação foi difícil. “Os amigos foram sabendo depois, com o passar do tempo. Falar sobre HIV e ainda contar que você é soropositivo infelizmente ainda é muito complicado”, lembra.

Lima sempre sofreu preconceitos por ser gayl. Ele acredita que essa problemática aumenta consideravelmente quando a orientação sexual vem à frente de qualquer outra condição, principalmente em cidades mais conservadoras. “Na mente de algumas pessoas, somente homossexuais portam a doença AIDS, algo que não é fato”, garante.

Ao buscar tratamento, Lima pôde conhecer outras histórias e ver que a vida não acabava por aí. Ciente de que a cura para a enfermidade ainda está longe de ser encontrada, o jovem acredita que os avanços na medicina podem confortar quem convive com o vírus atualmente. “Eu acredito que é o tratamento com os antirretrovirais, por mais que não seja uma solução definitiva, é uma cura funcional, que nos permite viver como qualquer outra pessoa sem o vírus. O soropositivo precisa se aceitar nesta condição para buscar uma melhoria de vida tanto física quanto psicológica”, acredita.

Para ele, as políticas públicas, via Sistema Único de Saúde (SUS), são positivas, em especial pelo suporte que é oferecido ao paciente. “Eles (SUS) me deram todo o suporte médico, psicológico e farmacêutico. Sem contar nas rodas de conversas (grupos de ajuda) que eles tem para compartilharmos do mesmo detalhe com outras pessoas”, salienta.

Sua história nas redes sociais

Geovanni sempre esteve aberto ao problema e nunca escondeu a situação que enfrentava. Foi a partir daí que sua vida e a forma de encarar o HIV mudaram radicalmente. “Quando resolvi me expor na internet senti um afastamento de pessoas principalmente em aplicativos de encontro, porque eu colocava a minha sorologia à vista”, lembra. “Mesmo com a camisinha, as pessoas têm medo de ter relação sexual com uma pessoa declarada por viver com HIV, por medo da mesma não funcionar”, comenta.

Reprodução

Atualmente, Lima namora Jeandro Borba. Eles estão juntos há cinco meses e criaram uma página no canal de vídeos do Youtube chamada “Discordantes”, que conta o dia a dia de quem convive com a doença e o que o casal faz para buscar uma qualidade de vida melhor. “A imagem de uma pessoa magra, com ferimentos ainda não saiu da cabeça das pessoas quando elas ouvem na palavra AIDS. Houve uma grande evolução dos medicamentos que nos possibilitam viver normalmente, sem nos restringir de nada, fazendo até com que nós não possamos infectar outras pessoas.”, salienta.

Lima diz que diariamente recebe mensagens de pessoas que descobriram recentemente o diagnóstico positivo e que não sabem o que fazer. “Manter a calma e procurar ser ajudado é o melhor caminho. Todo mundo precisa de todo mundo”, afirma.

Conforme Lima, o canal no Youtube traz informações sobre HIV, AIDS, relacionamento sorodiscordante, tratamento, prevenção, sorologia, novidades e dia a dia de um relacionamento sorodiscordante.

Os assuntos são sérios e atuais, tratados de uma forma leve e descontraída.

Em Bento, serviço de atendimento especializado é oferecido a soropositivos

De acordo com a Vigilância Epidemiológica do município, após o diagnóstico reagente, o usuário é encaminhado ao Serviço de Atendimento Especializado (SAE), onde é realizada a escuta do paciente pelos técnicos, oferecendo informações acerca da doença, da condução do tratamento, do funcionamento do local, ofertando, além das consultas com infecto, a disponibilidade de acompanhamento de profissionais da enfermagem, psicóloga, assistente social e nutricionista. Também é ressaltada a importância da adesão ao tratamento para que este surta os efeitos esperados.

Casos de Aids e HIV apresentam mudanças em Bento

Um relatório apresentado pelo setor de Vigilância Epidemiológica de Bento Gonçalves, apresentou números em relação ao vírus HIV e Aids. Conforme os números, em 2017, foram 27 novos casos de HIV e 11 de Aids e uma taxa de mortalidade de aproximadamente 17%. No entanto, casos entre mulheres e adolescentes tem aumentado, ocasionando preocupação aos órgãos de saúde.

Para isso, a secretaria de Saúde trabalha na prevenção, com explicações acerca da doença, importância do uso do preservativo, sintomas, tratamento, palestras em escolas e empresas, campanhas na comunidade nas datas de combate à doença, distribuição de preservativos. “Precisamos fazer um trabalho diário de prevenção para, a longo prazo, estabilizar e diminuir os índices da doença. Temos que ter em mente que a AIDS, ainda não tem cura e atinge todas idades e classes sociais”, explica o secretário de Saúde, Diogo Segabinazzi de Siqueira.
Jovens são as principais vítimas

Conforme o relatório apresentado, na Capital do Vinho os jovens com faixa etária de 20 a 39 anos, representam 57,8% dos casos de HIV registrados pela Vigilância Epidemiológica. Na sequência, aparecem os adultos (40 a 59), 34,3% , adolescentes (10 a 19), 4,2%, idosos (60 ou mais), 2,5% e crianças, 1,2%.
Na maioria dos casos, o contágio ocorreu por relações sexuais com um parceiro infectado. Nos homens, essa provável forma de exposição alcança 61%, equanto para as mulheres, o número chega a 80,9%.

Quanto ao gênero, nos primeiros anos, onde a epidemia começou a ser monitorada em Bento Gonçalves, 100% dos dos doentes eram homens. Na década atual, esse número foi atualizado e hoje 54,4% são do sexo masculino e 45,6% feminino.

Outro número que apresentou alteração são os casos de gestantes infectadas com o HIV. Segundo a Vigilância Epidemiológica, nos últimos cinco anos, a taxa média de bebês expostos ao vírus aumentou 86,4%, ou seja, 6,39 por mil nascimentos no último triênio.

Questionados sobre a orientação sexual dos doentes com Aids se declararam heterossexuais (78,8%), enquanto bissexuais e homossexuais são 9,1%.

Casos de HIV e AIDS em Bento

Prevenção e diálogo são os caminhos

Mesmo com as novidades eficazes no tratamento, especialistas garantem que a prevenção continua sendo o principal meio para o controle e redução dos casos. Conforme a médica Infectologista Daniela Zilio Larentis, a infecção pelo HIV não tem cura, mas tem tratamento. “Quanto mais cedo for descoberto o vírus, melhor será a resposta do tratamento e menor a transmissibilidade da doença”, explica.

Infectologista ressalta a importância do diálogo, a fim de reduzir o contágio da doença. Foto: Reprodução

Conforme Daniela, uma pessoa infectada pode ficar, em média, de 8 a 10 anos sem nenhum sintoma, mas durante todo este tempo pode transmitir o vírus. O último Boletim Epidemiológico HIV/AIDS do Ministério da Saúde (MS) mostra que a maior concentração dos casos de AIDS no Brasil está nos indivíduos com idade entre 25 e 39 anos para ambos os sexos e que o estado do Rio Grande do Sul apresentou a maior taxa, de 34,7 casos/ 100 mil hab.

Daniela garante que a terapia antirretroviral é a única forma de tratamento atualmente. “Ela reduz a carga viral do HIV e reconstitui o sistema imunológico da pessoa infectada, prolongando e melhorando a qualidade de vida do paciente”, explica.

A infectologista ressalta a importância do diálogo, a fim de reduzir o contágio da doença. “A melhor forma de prevenção ainda é o uso de preservativo. O conhecimento da doença e tratamento correto e regular também diminuem sua disseminação”, afirma. “Quanto mais cedo for descoberto o vírus, melhor será a resposta do tratamento e menor a transmissibilidade da doença”, pontua.

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Ranieri Moriggi

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