Editorial

Os 144%

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

O medo da violência é uma realidade que tem mudado vidas. O temor de ser assaltado, sequestrado ou agredido se tornou uma dura marca na turística Bento Gonçalves. Na falta de atuação do Poder Público, as pessoas acabam se acostumando a buscar a proteção como for possível: evitando lugares vazios, guardando pertences com cadeados, vivendo vigiadas por câmeras, rodeadas de muros, entre grades.

Infelizmente, não há como negar que a sensação coletiva de medo tem bases concretas hoje em dia. Ela não é fruto de uma ficção. A criminalidade cotidiana assusta. Quem está crescendo sob o espectro da violência, ainda que nunca tenha sido vítima de algum ataque, acaba tendo de se adaptar a uma vida em que tudo o que não está sob o próprio controle ou dos familiares mais próximos pode ser temido. Não sem razão.

Os indicadores quadrimestrais, divulgados pela Secretaria de Segurança Pública, apenas ressaltam o que há tempos a imprensa apresenta e a Polícia nega. A proliferação de facções vinda dos grandes centros chegou com força nos pequenos municípios. De acordo com especialistas em segurança pública, entre as principais características da presença criminosa destes grupos organizados está o aumento na taxa de homicídios e as ações que envolvem posse, venda e consumo de entorpecentes. Conforme o relatório, ambos indicadores sofreram alta em Bento Gonçalves.

A sensação coletiva de medo tem bases concretas hoje em dia

Se isso não fosse suficiente para evidenciar o surgimento dessas facções, no último sábado, a comunidade do bairro Municipal presenciou, atônita, a uma execução em plena luz do dia, em meio à via pública. A vítima foi metralhada e teve o corpo incinerado por criminosos, que após o assassinato cruel, fugiram do local, abandonando o automóvel da fuga no interior do município. Uma clara mensagem de que alguém já tomou conta da periferia, e não tem medo de matar. Nas ruas simples do Interior, a marca das facções passou a fazer parte do cenário cotidiano.

As mortes engrossaram uma conta macabra no município de apenas 115 mil habitantes: 22 pessoas já foram assassinadas este ano. O número é 144% maior que o registrado no mesmo período do ano passado. A facção se fortalece do esgotamento da reserva moral de uma comunidade. Temos visto isso nas periferias de Porto Alegre e nos presídios superlotados, onde exercem controle total. Comunidades empobrecidas, sem assistência plena do Estado se tornam terrenos férteis para a estrutura criminosa.

As manchas da violência avançam de forma inquieta sobre nossa cidade, fomentadas pelos entorpecentes e o crime organizado. É uma doença grave, que precisa de prevenção e tratamento adequado. Abordamos, há menos de duas semanas, a redução significativa no número de assassinatos na cidade quando, coincidência ou não, o efetivo de policiais estava com acréscimo de 20 soldados em treinamento. Quem sabe a resposta não esteja mesmo, ao menos de forma momentânea, no aumento do policiamento ostensivo.

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