Editorial

O velho assalariado

Com a entrada em vigor da reforma trabalhista, ocorrido em setembro do ano passado, muito se temia pela manutenção ou perda de direitos trabalhistas. Questões como negociado sobre o legislado, individualização da negociação trabalhista, regulamentação do trabalho intermitente e dificuldade de acesso à Justiça do Trabalho pautaram agendas de protestos durante todo o último ano, dispersando uma fina névoa de incertezas sobre os dias que viriam.

Contudo, a dita reforma na Consolidação das Leis Trabalhistas – tida pelos propositores do projeto e pela base do Governo Federal como extremamente defasada – manteve pontos de suma importância ao trabalhador. Um, em destaque, é o pagamento da remuneração em dia, tradicionalmente realizado no quinto dia útil de cada mês. Da mesma forma a quitação de verbas rescisórias quando o contrato é dado por encerrado pela parte contratante.

Entretanto, não é raro que, de tempos em tempos, empresas passando por dificuldades ou movidas por quaisquer outros interesses privados, optem por atrasar o repasse aos trabalhadores. Há cerca de 20 dias o Semanário expõem a frustração de 76 empregados de uma empresa terceirizada, contratada pela M. Dias Branco, que após aproximadamente 30 dias, ainda aguardam o pagamento de benefícios trabalhistas.

“Pra quem será que o dinheiro faz mais falta? Para a empresa ou empregado?”

Conforme o sindicato da categoria, a contratante comunicou a dispensa dos trabalhadores, retendo as carteiras de trabalho e não acertando os honorários referentes ao período trabalhado. Como também é corriqueiro nesses casos, a maioria dos trabalhadores é migrante do nordeste do país ou imigrante, como haitianos. Em reunião com os representantes da classe, a empresa se comprometeu – após quase dois meses – a dar encaminhamento a questão e cumprir o que estabelece a lei.

O desconfortável nessa situação é que novamente percebemos uma prática que tem se tornado constante no país – a sobreposição dos direitos trabalhistas por vontade empresarial. Convenhamos que não soa bem para companhias como a supracitada, que fatura milhões mensalmente e mantém lucros na mesma casa, se recusar a pagar salários baixíssimos, para pessoas que dependem de cada centavo para comer, se vestir ou mesmo ter um teto sobre suas cabeças. O descaso fica estampado.

O que acaba ficando cada dia mais claro é que temíamos um monstro que, embora tenha garras afiadas, acabou se mostrando pouco agressivo nos seus primeiros meses de vida. Todos achavam que a reforma trabalhista jogaria o trabalhador em um lamaçal de desprezo e pobreza, quando na verdade os velhos motivos, ainda muito presentes na relação patrão/assalariado, mantém espaço no rol de macetes aplicados na má fé, lucrando em cima de quem já não tem quase nada. Para quem será que esse dinheiro está fazendo mais falta? Para a empresa ou para o funcionário?

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

editoria@jornalsemanario.com.br

Deixe um comentário