Economia

O trimestre da retomada: setor vitivinícola enfrenta recessão

Lorenzo Franchi
Escrito por Lorenzo Franchi

Conforme o Sindivinho-RS, a substituição tribuária e a concorrência com produtos internacionais são fatores negativos

Ao contrário de outros setores da economia, os primeiros meses de 2018 não têm simbolizado números positivos ao setor vitivinícola da Serra Gaúcha. Entre os fatores apontados pelo Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do Rio Grande do Sul (Sindivinho RS), está a concorrência com produtos importados, a não chegada do frio e a substituição tributária.

Conforme o presidente da entidade, Benildo Perini, o momento econômico é de recessão. Ele ainda acrescenta que o setor enfrenta estas dificuldades há cerca de três anos. “Nós vivemos um período onde falta o clima que mais ajuda na venda dos nossos derivados de uva, em especial vinhos, o frio. Este é um componente que faz ativar o consumo e, por isso, não se vê de forma tão positiva estes primeiros meses do ano”, analisa Perini.

Substituição tributária

O líder sindical ainda pontua para as taxas cobradas ao segmento. “Outro agravante terrível é a substituição tributária. Isso vem atrapalhando e muito o setor vitivinícola. Nós temos hoje, como prioridade, encontrar uma luz, um caminho que faça com que o Rio Grande e os administradores se sensibilizem, para que não se tenha anos negativos para nossa atividade”, ressalta.

Ainda sobre as taxas, Perini acrescenta que estas acentuam para o momento delicado. “Somos obrigados a pagar os impostos do comércio, o que o Sindivinho entende como uma injustiça, tendo como base o momento que se vive de recessão, devido a substituição tributária. Os outros impostos são normais, embora esteja acima daquilo que o mundo pratica”, observa.

O presidente do Sindivinho ainda explica que a substituição tributária impacta diretamente nas vendas. “Fez com que se perdesse mercado para os produtos derivados de uva importados. Isto é uma realidade que está aí. Os importadores recolhem a ST sobre invoice (fatura)”, disse. Quanto ao valor da taxa sobre o produto, ele exemplifica que em uma garrafa que está na prateleira a R$20 recolhe- se o imposto sobre R$10 a R$12. “Isto cria um diferencial de preço ao consumidor”, ressalta Perini.

Outra ponderação do presidente do Sindivinho, voltada ao consumidor, é devido ao preconceito com vinhos nacionais. “Há uma tendência em consumir importados, embora tenha acontecido uma evolução significativa da qualidade dos produtos no Brasil, falta ainda uma adesão dos consumidores, em no mínimo provar os vinhos brasileiros”, analisa.

Benildo Perini aposta no frio para crescer as vendas de vinhos. Foto: Lorenzo Franchi.

Perspectivas e investimentos

Embora as vendas ainda não supram as expectativas do setor, a qualidade das uvas colhidas neste ano superam as projeções iniciais. De acordo com Perini, nesta Vindima as características da matéria prima estão enchendo os olhos dos produtores. “Tivemos um índice maravilhoso de qualidade, como a um bom tempo não se tinha. Com bom índice de maturação, sanidade, ou seja, tivemos boas uvas. Isto vai fazer com que se possa oferecer aos consumidores produtos melhores, superiores aos que vinha-se oferecendo”, destaca.

Mesmo com uma melhor qualidade nos produtos, o presidente volta a atentar para as taxas. Conforme ele, “não tem porque não reivindicarmos que se tenha uma retirada da substituição tributária para que sejamos competitivos a nível de preço”, explanou.

Questionado sobre o impacto da produção para futuros ganhos, Perini utilizou uma metáfora para exemplificar o momento econômico. De acordo com ele, o setor continua carecendo de cadeira de roda, de investimentos. “Nós produzimos, fazemos todo o investimento que a indústria exige. A tecnologia que a grande maioria das vinícolas instalou, adquire a matéria prima, incorporar todos os vasilhames e ainda pagar os impostos do comércio. Este continua sendo um dos grandes entraves como um todo. 100% do produto engarrafado sofre com a substituição tributária”, pontua.

Sobre a venda das iguarias, Perini destaca que o clima não tem colaborado. “As vendas demonstram crescimento quando o frio começa em abril. Estamos na metade de maio e nada de baixas temperaturas. Ninguém vai tomar duas garrafas para compensar este período. O bom ano do vinho é aquele que o frio começa cedo e se estende até agosto”, disse.

Questionado sobre contratações e demissões, o líder sindical revela que o empresariado está cauteloso. “O setor está mantendo os funcionários com a expectativa de boas vendas. As empresas estão tentando deixar produto pronto para que, se tiver a benção de um frio amplo, se possa ter produto pronto, mas poderia se dar férias logo, se não estivesse investindo em estoques”, observa.

Sobre a prospecção de mercados internacionais, Perini alerta. “É algo lento com avanços gradativos. A prova está que o percentual de exportação é pequeno”. Ainda sobre o consumo, ele ressalta que no Brasil a população não tem o hábito de beber vinho, o que acirra a concorrência interna.

Por fim, o presidente destaca a esperança no frio. “É delicado transmitir otimismo. Mas os dias melhores deverão chegar. Logo deverá ter algum movimento, algum reconhecimento que o nosso segmento merece se manter vivo e forte, para isto precisa de engajamento geral, que começa pelo primeiro gole, provem o nosso vinho”, finaliza Perini.

Sobre o autor

Lorenzo Franchi

Lorenzo Franchi

Deixe um comentário