Editorial

Não seja aquele cara

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

A curiosidade dos motoristas diante de um acidente de trânsito não atrapalha apenas o fluxo de veículos, mas traz consequências ainda maiores. Além do congestionamento que pode causar, essa paradinha atrapalha também o trabalho de resgate das ambulâncias e o atendimento da ocorrência por parte da polícia. Pior: pode causar novos acidentes e ainda mais graves do que aquele que o original. A mesma situação se aplica em desastres e incêndios, como o ocorrido no domingo, em uma empresa de Bento Gonçalves.

Parece que o ser humano sente uma necessidade de passar devagar para ver detalhes no estrago dos veículos ou ver o que aconteceu com as vítimas, ver o fogo consumir a estrutura.

O aglomerado de curiosos também acaba deslocando policiais e bombeiros que poderiam atender outras ocorrências. Isso porque é preciso orientar os motoristas para que não reduzam e nem parem para ver o acidente, da mesma forma, alertar sobre os perigos de explosões ou mesmo fumaça tóxica, como ocorreu em Bento.

Parar para fotografar acidentes e incêndios é mais perigoso do que você imagina

Fora a curiosidade, outros comportamentos também atrapalham o atendimento das autoridades. Entre elas, o uso indevido do acostamento das estradas. Em conversa com um bombeiro, ele relatou que, em determinada situação, foram atender um acidente e como tinha carros usando o acostamento sem necessidade, tiveram que pegar o tráfego normal. Resultado: levaram seis minutos para percorrer 300 metros.

Uma campanha feita na Alemanha, cujo vídeo espalhou-se pela internet e pelas redes sociais há alguns dias, tem como tema este hábito nas ruas e estradas do país. O mote: Sei kein Gaffer. É difícil uma tradução direta do alemão que conserve o significado, mas pode ser entendido como “não seja intrometido” ou “não seja curioso”. Em alemão, Gaffer é aquele cara que fica se metendo em tudo, mas sequer tem a capacidade de ajudar. E, como ouvimos desde pequenos, muito ajuda quem não atrapalha. No caso, atrapalhar quer dizer parar o carro diante de um acidente, sacar o celular e começar a tirar fotos e selfies da cena, incluindo os veículos envolvidos (ou seus escombros) e as vítimas. Por mais que seja fácil, quase instintivo e por vezes útil registrar um incidente no trânsito ou incêndios com o celular, há de se ter bom senso respeitar certos limites.

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