Editorial

Na torcida

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

O governo Temer demorou para entender como a insatisfação dos caminhoneiros com o preço do diesel realmente levaria a uma mobilização incômoda. Na noite de quinta-feira, foi divulgada nota anunciando uma suspensão temporária, de 30 dias, na queda de braço entre estado e classe. Contudo, nem todos da categoria adotaram o termo e a Serra registrou, na sexta-feira, cerca de 20 pontos de manifestação. Entretanto, duas coisas já ficaram muito claras neste meio tempo: não são Temer e seus palacianos quem mandam no país, e o acordo com os caminhoneiros não vai sair barato.

A postura do governo beirou a indiferença antes de a greve começar. Na sequência, quando as rodovias começaram a ser fechadas e as consequências econômicas apareceram, o governo ensaiou fazer pressão sobre a Petrobras. O presidente da companhia saiu ainda na segunda-feira garantindo que a política de preços da empresa não muda. Se quisesse atender ao setor de transportes, o governo teria de mexer no próprio bolso.

Eis o que de fato aconteceu: não o governo, mas os presidentes da Câmara e do Senado tomaram a iniciativa de pensar em resoluções que, se capazes de dissolver a greve, ambos fariam aprovar nas respectivas Casas. Presidência, ministérios, Petrobras, trocavam mensagens, marcavam reuniões para o dia seguinte, contrapunham-se em hipóteses e rejeições.

Torcemos para que a decisão do Executivo não ricocheteie e afunde ainda mais o nada emergente território nacional

O governo que não chegou a governar proclamou sua inexistência. Temer, fez renúncia branca com a admitida passagem da responsabilidade do Executivo para o Legislativo. Não foi melhor nem pior para o país, porque, embora melhor que a omissão, foi mais um avanço na bagunça institucional. Como os anteriores, prenúncio de outros.

A verdade é que os caminhoneiros param um país parado. Sua greve atinge o que ainda respira, aos arrancos, no dia a dia do país. A lenga-lenga da retomada de crescimento, propagada por uma articulação entre assustados das eleições e economistas duvidosos, já ruíra sob o aparecer de números mais ou menos reais. Como o do desemprego crescente e o da produção industrial ainda em coma.

Em teoria, há duas outras medidas que o governo poderia tomar para tentar baixar o preço dos combustíveis na bomba: anunciar um novo corte de impostos (resultado paliativo do acordo com os representantes de classe) ou mudar a política de preços da Petrobras, o que dificilmente deve ocorrer. Torcemos para que a decisão do Executivo seja sensata e não ricocheteie, afundando ainda mais o nada emergente território nacional.

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