Editorial

Na suplência

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Há cerca de dois anos, a Câmara dos Deputados, ao acolher o pedido de impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff, expôs ao País a baixa qualidade da atual representação parlamentar. Não pelo resultado – ansiado pela maioria dos brasileiros –, mas pelo tom pitoresco, por vezes humorístico, adotado por cada parlamentar ao anunciar seu voto. Durante quase 10 horas de sessão, o Brasil assistiu aos breves pronunciamentos de 504 dos 513 deputados, tempo suficiente para patentear a distância entre eleitos e eleitores, evidenciando o que se convencionou chamar de “crise de representatividade”. A mediocridade dos parlamentares humilhou a Nação.

Novamente, agora em 2018, o termo volta a abancar-se, desta vez em âmbito municipal. O “ele não me representa” polarizou o eleitorado bento-gonçalvense e mais uma vez, não elegemos representantes à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados. Sem surpresas, a potência dos mais de 90 mil votos do reduto eleitoral bento-gonçalvense foi fracionada entre os oito candidatos a deputado estadual e quatro postulantes a federal. Fracassamos pelos mesmos motivos que tentávamos rechaçar nas últimas décadas, nossa desunião.

O “ele não me representa” tomou conta do eleitorado bento-gonçalvense

“Democratas de todos os partidos e quadrantes, uni-vos!” A paráfrase da frase célebre do Manifesto de Marx e Engels serve para indicar o caminho das pedras que os munícipes deveriam seguir. Não há meio termo, atalhos alternativos. A estrada pode não levar de imediato a um novo mundo, mas se quisermos ter chances reais de futuro é por ela que teremos de trafegar.

Bento Gonçalves tenta provar para os outros que é forte, que tem ativo eleitoral, quando na verdade padece há 32 anos sem eleger um nome sequer às casas legislativas. Quando entendermos que esse não é o caminho, e que apenas a união por representatividade fará alguma diferença, talvez tenhamos exponentes na política. Damos muito para outros e colhemos migalhas em troca. Era lógico que uma cidade com pouco mais de 115 mil habitantes não elegeria os oito nomes colocados à estadual, muito menos os disponíveis para a Câmara, como também é legal a manifestação de parte da comunidade dando anuência a candidatos de fora de nosso reduto. Entretanto, quando 40% dos votos válidos da cidade são contabilizados para proponentes de outras regiões, este é um grave sintoma, que esboça duas possibilidades: ou os partidos daqui estão em falta de material aceitável, ou gostamos de permanecer na suplência.

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