Editorial

Manipulação da confiança comunitária

Em uma democracia moderna, a defesa de interesses legítimos de empresas, entidades e organizações junto aos agentes públicos é fundamental para a vitalidade do processo democrático e na tomada de decisões estratégicas pelo Poder Executivo ou Congresso Nacional. A melhor forma de decidir é ter à disposição inúmeras visões e perspectivas antagônicas em relação ao mesmo fato. Tudo precisa acontecer de maneira transparente para todos os lados, sem movimentos nas sombras ou em conversas sem testemunhas. Contudo, no inverso destes verbetes que representam o lobby, habita uma prática que tem tomado forma, nome e direção, principalmente no bairro São Bento: a manipulação da confiança comunitária.

Hoje é quase senso comum que a melhor organização do espaço urbano se dá em cidades com maior densidade demográfica, ou seja, aquelas que têm uma quantidade maior de pessoas morando em uma determinada porção da cidade. É certo que a concentração de pessoas em determinados pontos promove maior interação entre as diversas atividades urbanas, possibilita uma enorme economia de energia em deslocamentos de pessoas e cria inúmeros processos de sinergia de ordem social e econômica. E é para esse o norte que aponta a bússola do Plano Diretor de Bento Gonçalves. Entretanto, fica cada dia mais nítida a possível utilização indevida de influências comunitárias para interesses privados.

Na noite de sexta-feira, durante reunião da Complan para apresentar o plano a lideranças de bairros, um abaixo-assinado, prescrito por cerca de 50 pessoas, todas, a princípio, moradoras da rua Parnaíba, no São Bento, foi apresentado como justificativa para permissão de prédios em um dos lados da via. O interessante nisso é que, no momento em que foi apresentado pela bancada do Conselho causou surpresa nos participantes representantes da localidade. Estes, além de não terem conhecimento sobre o documento, discordavam veementemente do que ali era proposto.

Pois nessa semana nossa reportagem, em posse de cópia do abaixo-assinado, foi conferir in loco a real intenção dos moradores, além da veracidade do documento protocolado. Para nossa surpresa, figuram entre as assinaturas as rubricas de crianças, com pouco mais de 10 anos de idade, tal qual o visto de pessoas que assinaram o ofício sob a explicação que se tratava de uma ampliação no tamanho da rua, reivindicação antiga da comunidade. Avançando mais no processo, descobrimos que as pessoas por trás do documento são proprietárias de cinco terrenos no bairro, três em posse de um empresário conhecido pelo engajamento em causas comunitárias na cidade e outros dois em nome de um advogado de renome. Ou seja, utilizaram um esquema ardil de adulteração de políticas públicas para benefício próprio, uma vez que a valorização de seus terrenos pode até triplicar.

Na sessão de segunda, o assunto “Plano Diretor” foi alvo de diversas críticas por parte dos vereadores, que se sentiram pressionados após o aparecimento de boatos sobre a possível compra de emendas parlamentares. Entre os pronunciamentos, um em específico foi muito oportuno ao ressaltar que “não há mais espaço para a malandragem”. A sociedade cansou de ser manipulada e está vigente quanto a seus direitos e às atitudes dos próximos. Foi-se o tempo da desinformação e das práticas veladas fraudulentas. Os anseios de uns não podem resultar no prejuízo de muitos outros. Todos estão “de olho”.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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