Editorial

Mancha no Vale

Nesta semana, as belas paisagens de verdes vinhedos, mirados até o limite de alcance do olhar, em Faria Lemos, foram palco para duas tragédias de grande comoção regional. Com marcas cravadas no asfalto e na memória da comunidade, um homem e uma criança findaram seus dias entre as sinuosas curvas da ERS-431.

Outro acidente, outras mortes, outra atualização de estatísticas. Os últimos levantamentos da ONU mostram que os acidentes de trânsito representam a principal causa de morte entre jovens de 15 e 29 anos no mundo. Segundo os dados oficiais, mais de 1,2 milhão de pessoas perdem a vida em acidentes de trânsito todo o ano no mundo. O Brasil está no 4º lugar do ranking de países com maior quantidade de mortes ocasionadas por acidentes de trânsito, segundo pesquisa do Instituto Avante Brasil.

Mas nesse caso a culpa é de quem? Do governo, por permitir tráfego em estradas danificadas, com baixa sinalização e pouca fiscalização? Do motorista, por ser imprudente ao transitar em uma rodovia conhecida por sua dificuldade condutiva? Da empresa, por permitir, em diversas vezes, a condução de caminhões sem a devida revisão do equipamento? Da polícia, por não coibir tais ações? A culpa é de todos.

Assim como nós, pequenas engrenagens em um grande sistema falho, em sua essência, que visa um único objetivo, todos contribuímos, de forma direta ou indireta, para esta violência. Vivemos em um organismo que injeta cada dia mais a necessidade de sermos ágeis e pragmáticos no cotidiano. Pouco tempo para pensar e muito menos para agir. Tudo isso respinga nestas mortes. Tudo vivifica o sofrimento.

É preciso reconhecer que as estatísticas de mortalidade no trânsito não apontam tão somente para algo muito além do número de mortes, mas também para a forma desumana de sociabilidade nas vias públicas deste país, para a fragilidade dos mecanismos de fiscalização e gestão do trânsito brasileiro, da qualidade da fabricação e segurança de nossos veículos e principalmente para o padrão de atendimento aos acidentados e das vítimas fatais de trânsito deste país.

O Brasil somente deixará de ser um país pobre, ignorante, corrupto e violento no trânsito quando suas instituições essenciais deixarem de seguir a lógica do capitalismo selvagem, extrativista e concentrador, para se alinhar aos países do capitalismo evoluído e distributivo, que contam em média com 5 mortes para cada 100 mil habitantes.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

editoria@jornalsemanario.com.br

Deixe um comentário