Editorial

Mais um para a conta

A divulgação de dados sobre o recorde de violência no Brasil, indicando o registro de mais de 60 mil mortes violentas no ano passado reforçou um dos mais fortes e mais negativos estereótipos a respeito do país no resto do mundo. Pergunte a um estrangeiro o que vem a sua mente quando ele pensa no Brasil. Um adolescente armado usando sandálias pode não estar muito atrás de jogadores de futebol ou passistas de carnaval de biquíni.

A descrição não é nova, nem rara. Ela é a primeira frase de uma reportagem publicada pela revista ‘’The Economist’’ em 2008, quando tratava justamente de uma aparente redução da violência no país, que crescia e parecia no rumo certo de desenvolvimento à época. Depois da pior recessão da história do país, com aumento da pobreza e da desigualdade, a violência volta a crescer e a marcar a imagem internacional do Brasil. Os dados mais recentes reforçam esta tendência.

No ano passado, os números de mortes violentas no país já geraram na mídia internacional várias comparações entre o Brasil e a Síria, país que vive uma grave guerra civil. A comparação que aparece agora é diferente, mas muito negativa. ‘’É como se o Brasil tivesse uma explosão de bomba atômica por ano.

O que entristece é o sobrechegar e acostar do cenário nacional às paisagens da Capital do Vinho. No ano passado batemos recorde de violência, com uma escalada de mortes não vista na última década. Nesse ano, em apenas 60 dias, mais de nove pessoas já perderam a vida pelas ruas de Bento Gonçalves, vítimas da violência urbana. O número é significativamente maior do que o registrado no mesmo período de 2017, o que nos joga, novamente, em um mar de pessimismo, com rasa chance de encontrar um farol para nos nortear.

“Quanto tempo ainda temos antes dos turistas abandonarem a cidade por causa da escalada da violência?”

E da mesma forma que afeta a imagem do país, os altos índices de violência esbarram em um dos maiores vetores econômicos municipais, o turismo. Quanto tempo ainda temos antes que pessoas de todas as partes tenham receio de vir à Serra por temor a violência?

Apesar de o país viver uma “emergência nacional’’ por conta da escalada da violência, o governo não parece ter um plano para lidar com o problema. A atual política do governo contra a insegurança tem sido amplamente reacionária em vez de proativa, centrada apenas no envio de forças de segurança a locais mais violentos em vez de implementar programas voltados a reduzir e prevenir crimes e a violência.

O aumento da violência no país também tem levado analistas estrangeiros a apontarem o impacto político que isso pode ter. A violência no Brasil está fora de controle, e os brasileiros parecem tolerar cada vez menos o que está acontecendo.

Parece óbvio, mas alguém mais no campo dos candidatos a presidente precisa oferecer uma alternativa sã, democrática e com credibilidade –uma estratégia de segurança que respeite os direitos humanos, mas que seja também ambiciosa e ampla o suficiente para reduzir dramaticamente a violência em âmbito municipal, estadual e nacional.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

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