Editorial

Má gestão e dificuldade na Polícia

A difícil situação vivida pela Polícia Civil em Bento Gonçalves, tal qual em âmbito nacional, sem pessoal e recursos materiais à altura de suas necessidades – apontada em diversas entrevistas e reportagens produzidas pelo Semanário e publicadas nos últimos meses –, não tem merecido do governo respostas que permitam vislumbrar uma solução a curto prazo. Se por um lado isso é compreensível tendo em vista a grave crise por que passa o País, por outro não resta dúvida de que só se chegou a essa situação por graves problemas de gestão pelos quais agora a população paga caro.

Pela primeira vez nesta década foi reduzido o volume de recursos gastos com a Polícia Civil em um ano – R$ 95 milhões de 2015 para 2016, sendo R$ 34 milhões referentes a pessoal. A verba de manutenção também caiu 10% no primeiro semestre de 2017 em relação ao mesmo período de 2016 e em 2018 o cenário não apresentou melhoras até o momento. Essa penúria de recursos se reflete no mau estado de conservação das delegacias e em seus equipamentos ultrapassados. Uma situação que constata quem por qualquer motivo precisa ir a uma delegacia policial da cidade.

Infelizmente, tudo direciona para que 2018 seja outro ano de muita impunidade na Capital do Vinho

A polícia atua de forma limitada há anos, mas agora ocorreu um verdadeiro desmonte. Possíveis exageros de linguagem à parte, a situação é grave, pois o efetivo da Polícia Civil é mesmo o menor dos últimos 12 anos. A falta de delegados, investigadores e escrivães, somada às más condições de trabalho, tem inevitáveis consequências negativas sobre o desempenho da polícia. Em fevereiro deste ano veiculamos uma reportagem que já apresentava parte dos resultados gerados pelo descaso com a força policial. Na ocasião, revelamos que apenas 8 dos 34 assassinatos consumados de 2017 haviam sido encaminhados ao Poder Judiciário para continuação processual. Da mesma forma, nesta edição apresentamos outro levantamento preocupante. Apenas 4 dos 21 assassinatos cometidos nos primeiros quatro meses deste ano já possuem os autores identificados e devidamente direcionados aos órgãos de justiça. Com a atual leva de mortes e projetando os novos eventos de forma negativa – tendo como base a escalada nos anos anteriores – infelizmente, tudo direciona para que 2018 seja outro ano de muita impunidade na Capital do Vinho.

O governo não nega as dificuldades, o que não deixa de ser positivo, como primeiro passo para a busca de uma solução. Mas infelizmente se recusa a ver relação entre elas e a queda de desempenho. O grave no quadro mais uma vez descrito da difícil situação da Polícia Civil é que ele não é novo. Veio piorando ao longo dos anos, sem que fossem tomadas medidas capazes de mudar o rumo das coisas. Em 2017, de acordo com levantamento feito por sindicatos das categorias policiais, o déficit de policiais civis era de mais de 13.900, sendo 560 delegados, 2.180 escrivães e 2.851 investigadores.

O Governo promete liberar recursos para gastos com material e equipamento, além de nomear nos próximos meses novos policiais. São medidas insuficientes. Mas é o que é possível fazer dentro das limitações da Lei de Responsabilidade Fiscal. É verdade. Como é igualmente verdade que só se chegou a essa situação, da qual agora é difícil sair, por erros cometidos por este mesmo governo.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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