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Juarez José Piva: “Perder o medo, para ver a realidade”

Liderança destaca os avanços no setor metalmecânico, pontua problemas sociais a serem enfrentados e ressalta que a busca de conhecimento é o diferencial nos dias de hoje

Contribuindo diretamente com Bento Gonçalves, seja na liderança sindical ou em entidades comunitárias, Juarez José Piva acredita que a mudança da sociedade e dos rumos da Capital do Vinho estão ligados ao empreendedorismo e a busca por informação. Há 14 anos dirigindo o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Bento Gonçalves (SIMMME), Piva afirma que os profissionais precisam estar atentos às novidades, independente da área de atuação. Para ele, esse é ponto principal que poderá fomentar a educação, qualificação, infraestrutura, associativismo, competitividade e inovação no mercado, além de promover o desenvolvimento sustentável e o aumento do valor agregado para a indústria e o empregado.

Graduado em Administração, Piva sempre esteve a frente de diversos setores da economia. Atuante, o bento-gonçalvense já foi presidente de diversas entidades socioculturais, bem como de entidades como a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) e Associação das Indústrias de Móveis do Rio Grande do Sul (Movergs). “Muita coisa a gente ajudou e ainda ajuda a realizar. Toda pessoa precisa pensar que está inserido em uma comunidade: ou você ajuda a desenvolvê-la ou você está excluído. Cada um de nós precisa se doar um pouco mais em termos de voluntariado para a sociedade”, afirma.

Com esta filosofia de participação ativa na comunidade, Piva busca colocá-la em prática, junto as mais de 400 empresas que o SIMMME representa dos municípios de Bento e Monte Belo do Sul. Em entrevista exclusiva ao Semanário, ele diz que a entidade vem preparando o empresário para as mudanças que ocorrem constantemente. “Percebemos cada vez mais que a função do Sindicato é despertar essa vocação de novo empreendedor, que precisa se reinventar para o mundo”, garante.

Atividades programadas para 2018

Além de discutir os temas que deverão nortear as ações da entidade ao longo de 2018, Piva aponta as atividades já definidas para mobilizar a categoria, a fim de propiciar o engajamento e estímulo dos empresários na busca de qualificação e aprimoramento. “Estamos com diversos projetos, entre eles, o Arranjo Produtivo Local (APL), café-da-manhã com nossos associados, no qual trouxemos palestrantes. Vamos realizar o almoço das mulheres empreendedoras do setor metalmecânico. Elas têm muito a agregar com o SIMMME”, ressalta. Segundo Piva, a participação da mulher no setor está cada vez mais em evidência. Ele ressalta a importância do trabalho exercido por elas. “Eu acho que isso mostra a participação, o trabalho e a importância delas em qualquer ramo de trabalho”, afirma.

Evolução do setor metalmecânico

Considerado um setor muito diversificado, Piva ressalta o trabalho realizado pelas bases do polo metalmecânico. Para ele, o cenário atual mostra uma competitividade e desenvolvimento da engenharia. “É uma área inovadora, diferente dos demais. Em nossa região, podemos destacar a diversificação da indústria que não ficou só no metal, mas sim, em termos de envase, produtos completamente diferentes”, explica. Conforme o presidente do SIMME, a região evoluiu e, em virtude disso, o setor precisou buscar capacitação e novidades para não perder espaço no mercado. “Hoje, aqui temos robótica, fundição, redutores, os mais diversos ramos que abrangem isso. E o diferencial de tudo é que não são indústrias grandes, no sentido de tamanho, mas sim, grandes pelo seu envolvimento em termos tecnologias e estruturas diferentes. Empresas pequenas, porém, com muito valor agregado e renda para o funcionário. E é esse desenvolvimento que Bento Gonçalves vem fazendo com muita expertise, mostrando isso no mercado”, observa.

Carências e virtudes do setor

Para Piva, durante muito tempo o polo metalmecânico de Bento Gonçalves e região ficou centralizado, dificultando a entrada de tendências, desenvolvimento de novos produtos e tecnologias. No entanto, ele ressalta que a região possui um diferencial, no sentido da união de forças para desenvolver a cadeia produtiva através de parcerias. “Nós temos uma grande virtude que é a reinvenção das pessoas. Elas sentam na mesa em diversos locais, com os mesmos produtos e não se veem mais como meros concorrentes e sim, pessoas que podem desenvolver a cadeia através de parceria. Vamos ser concorrentes no mercado, mas aqui vamos ser parceiros para desenvolver”, afirma.

Outro ponto que está sendo debatido, segundo Piva, é a questão da maneira em que as universidades transmitem o ensino. Ele acredita que seja necessário uma proximidade e vivência maior no setor privado. “Entendemos que é um passo mais lento que o do empreendedor, mas, também vem desenvolvendo maneiras de fazer com que o aluno tenha outra visão, experiência e realidade de vida, que não é apenas ver aquilo que está no quadro escolar. É preciso interagir, encontrar o que está disponível para todos. Precisamos saber onde buscar a informação”, ressalta.

Mercado de trabalho

Com conhecimento acadêmico e, na maioria das vezes, sem qualquer tipo de experiência, os jovens precisam usar todas as suas habilidades para conquistar uma oportunidade. E quem consegue se destacar nas seleções de emprego diz que é preciso estar inteirado do ramo em específico, mas também, ter um amplo conhecimento de mundo. “O profissional precisa de estudo, leitura, troca de informações. Essa é a mudança que nós temos que encarar. O perfil procurado é o de pessoas mais interativas, mais proativas. Quem quiser permanecer no mercado vai ter que utilizar aquilo que ele tem de maior poder: a inteligência e o seu relacionamento”, pondera.

Polo industrial de Bento

Durante a entrevista, Piva falou sobre o polo industrial de Bento Gonçalves, na questão de expansão, solidez e mercado. Para ele, por estarmos localizados em uma área restrita, fica difícil falar de expansão da indústria. O presidente acredita que o empresário deve pensar em empreendimentos menores, mas com valor agregado maior. “Não podemos sonhar em trazer uma montadora, por exemplo, pois não teremos espaço para isso. E não é do nosso perfil, vocação e essência. Bento precisa pensar como desenvolver uma cidade mais inteligente, com infraestrutura, para que as indústrias que vierem para cá consigam agregar valor”, pontua.

Piva ressalta que o empreendedor precisa agregar o que já é existente com as novas tecnologias e possibilidades que possam surgir. “Eu não tenho o direito hoje de ir em uma propriedade e tirar o parreiral de uva, por exemplo. Eu tenho que mantê-lo e construir a indústria do lado. Então é isso que precisamos fazer: agregar essa nossa vocação e cultura em termos de desenvolvimento. É preciso pensar para daqui 20, 30 anos, analisar o que o cenário mundial está apontando. Quais as condições de vida que Bento Gonçalves vai dar para a sua população viver daqui alguns anos?”, indaga.

Futuro da indústria em Bento

Questionado sobre o posicionamento das empresas para absorver a mão de obra futura, Piva afirma que é uma questão paradoxal e que talvez o setor não absorva. Porém, se houverem empreendimentos fortes, que geram renda e desenvolvam o comércio, talvez a situação não se agrave. O que preocupa o presidente do SIMMME é a maneira como a sociedade enxerga certas atitudes. “O que preocupa é que nós queremos sempre ganhar mais, mas nunca nos preocupamos em adquirir o máximo com aquilo que ganhamos. O que o brasileiro precisa mudar em sua mentalidade é a qualidade e o preço em que nós pagamos pelos produtos. A preocupação está em preparar essas crianças e jovens para que sejam bons cidadãos, para se desenvolver e trocar ideias com outras pessoas, culturas e isso sim é o que vai desenvolver no futuro”, explica.

Futuro de Bento Gonçalves

Por ser uma liderança sindical e também um incentivador das ações realizadas na Capital do Vinho, Juarez Piva se diz preocupado com o futuro da cidade, principalmente no fomento de ações sociais que visem oferecer qualidade de vida à população, principalmente para os cidadãos que residem em situação de vulnerabilidade social. “Uma assistência social de pesquisa, capacitada, que se envolva, que vai ao encontro das pessoas e ver como estas se encontram. Quem são, qual a formação, quais as oportunidades para estas pessoas, o que a sociedade pode fazer”, justifica. O líder sindical garante ainda que o trabalho não irá resolver todos os problemas da sociedade, mas produzirá instrumentos para melhorar a vida da população. “Precisamos fazer uma força conjunta de toda a sociedade. É preciso perder o medo para ver a realidade”, garante.

Segurança em Bento Gonçalves

Questionado sobre os constantes casos de assassinatos e roubos ocorridos nos primeiros quatro meses do ano, Piva salienta que Bento Gonçalves não é uma ilha isolada. Ele acredita que cerca de 80% das ocorrências registradas estão voltados a um único ponto: o tráfico de drogas. Piva acredita que parte da sociedade estruturada do país perdeu o controle, tornando as pessoas de bem reféns da violência. “Bento Gonçalves e a nossa região precisam se unir, usar mais a inteligência. Não existe mais só o combate. Combate por combate não basta. Temos que melhorar o videomonitoramento, a iluminação pública, entre outros.Educação e repressão, combater o errado e realizar ações de sociedade, cidadania. Precisamos fazer a nossa parte urgentemente em todos os sentidos”, finaliza.

Sobre o autor

Ranieri Moriggi

Ranieri Moriggi

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