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HIV/Aids: Rede social para interagir e orientar

Ranieri Moriggi
Escrito por Ranieri Moriggi

Um aplicativo voltado para quem vive com o HIV/Aids ou convive com pessoas infectadas. Esse é objetivo da ferramenta criada por Lucian Ambrós, 29, administrador de empresas, nascido em Santa Maria e erradicado em Balneário Camboriú, Santa Catarina. Há oito anos, o jovem descobriu que é soropositivo e há cinco iniciou o processo de pesquisa para a construção do “Posithividades“, um canal idealizado como um modelo de rede social, onde há interação e troca de experiências direta entre usuários, de forma anônima ou não e segura. No ambiente virtual do aplicativo, o projeto traz, também, depoimentos de soropositivos contando suas histórias, notícias atualizadas, chat em grupo ou privado e um guia médico com as principais Organizações Não Governamentais (ONG) e Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) do país.

Ao acompanhar relatos da falta de espaço onde as pessoas que vivem com o vírus pudessem encontrar informações com credibilidade e dividir suas experiências de vida, Ambrós percebeu que poderia ajudar nesta luta. “Eu sempre enxergava o sofrimento das pessoas e, a partir daí comecei a pensar em uma maneira de suprir essa dor. Além disso, queria poder trabalhar o preconceito, dando liberdade para a sociedade falar sobre o assunto”, explica.

Dentro do aplicativo, que é gratuito, o usuário tem inúmeras possibilidades de participar e interagir com outros membros, por meio de chats abertos ou fechados, fóruns de discussão e guias de informação. Uma das preocupações da equipe liderada por Ambrós e que conta com o apoio dos profissionais Junior Abranches, Vanessa de Castro e Malon Emannuel, responsáveis pelos setores de sistemas de informação, administração e comunicação, é oferecer ajuda, que muitas vezes não são encontrados dentro de casa. “Além de auxiliar na redução de pessoas com HIV/Aids, o Posithividades vai ao encontro daqueles que, em virtude de contraírem o vírus, caem na depressão, alcoolismo e no uso de drogas. Hoje, vejo a política de saúde dos governos mais preocupada em distribuir camisinhas, do que educar a população”, aponta.

O aplicativo que tem como slogan “Você não precisa ser soropositivo para falar sobre HIV”, busca, segundo Ambrós, quebrar paradigmas e ser um suporte para a sociedade. “Queremos ser líderes na disseminação da informação, acolhimento e aconselhamento. Meu sonho é que o aplicativo mude a forma como as pessoas olham para o vírus. E aos poucos, tem dado certo. O preconceito só se combate com a informação”, acredita.

A ferramenta, lançada em junho passado está disponível para usuários de smartphones com plataforma iOS e Android. No entanto, a equipe de desenvolvimento já trabalha com a possibilidade de expansão dos limites do aplicativo. Os espaços mais procurados pelos membros são os campos das notícias e os chats abertos e fechados. Atualmente, o aplicativo possui 4,5 mil usuários espalhados em 54 países. No Rio Grande do Sul, apenas 120 pessoas entraram na rede social. “Como temos poucas publicações, ainda não atingimos um público maior, porém estamos trabalhando para aumentarmos a quantidade de participantes alcançados”, acredita.

Troca de experiências e debates

Além de ser uma ferramenta de interação, o aplicativo chega para dar apoio aos pacientes que descobrem serem portadores do HIV e não sabem a quem recorrer. Essa é a opinião do recepcionista de hotel Geovanni Henrique de Lima, 25, morador de Caxias do Sul. Ele descobriu ter contraído o vírus em 2014 e de lá pra cá faz uso de cinco tipos de medicamentos. Segundo Lima, hoje a quantidade de vírus em seu organismo está indetectável, ou seja, impossível de ser detectado através de exames.

O jovem acredita que se o aplicativo tivesse sido criado na época em que soube que estava contaminado, a ferramenta seria o seu “ombro amigo”. “No começo foi um pouco complicado porque eu sabia muito pouco sobre o HIV. E fui me aprofundar no assunto após o diagnóstico. Na época, eu contei para minha família e alguns amigos. Eu procurei algum aplicativo, mas não existia”, lembra. “Ao baixar o Posithividades, tive fácil acesso às ultimas informações de estudos e outros assuntos relacionados ao HIV, conhecei pessoas que passam pela mesma situação e troco experiências com outros usuários. Muitos não sabem o que fazer e com quem contar quando recebe o diagnóstico positivo pro HIV/Aids. Então, ali, as pessoas podem se informar e tirar dúvidas sem a necessidade de se expor”, explica. 

Com o objetivo de abrir o espaço para o debate entre pacientes e sociedade, o aplicativo estimulou a curiosidade de S.K, 33, morador de Bento Gonçalves. Ele não é soropositivo, porém, convive com amigos que foram diagnosticados com o vírus e decidiu baixar a versão em seu celular para saber mais sobre tema e entender como elas enfrentam seus medos. “Foi uma ideia muito bem pensada e que saiu do papel. O uso dessas novas tecnologias representa uma grande oportunidade de pensarmos sobre como dialogamos com a sociedade. Além disso, pude perceber que o aplicativo é um espaço para trazer mensagens sobre prevenção e sobre o enfrentamento à discriminação”, pontua.

Números da AIDS no Rio Grande do Sul

De acordo com o último boletim epidemiológico HIV/Aids, divulgado em 2016, a taxa de detecção da doença no Rio Grande do Sul apresentou redução progressiva. Em 2012, os números apresentavam que a cada 100 mil habitantes havia cerca de 43,1 casos. Em 2015 esse número passou para 34,7. Porto Alegre continua sendo a capital com maior taxa de detecção do país (74 casos a cada 100 mil habitantes), porém vem apresentando diminuição nos últimos seis anos. O Rio Grande do Sul ocupa o primeiro lugar no ranking dos estados com a maior taxa de detecção de HIV em gestantes. Atualmente há 10,1 casos para cada 100 mil habitantes. Em relação a mortalidade por Aids, o estado registrou queda (10,2 para cada 100 mil habitantes).

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