Bento Gonçalves amanheceu um pouco menos colorida na última quinta-feira, 10 de outubro, sobretudo, para quem mora no bairro Juventude da Enologia ou passa rotineiramente pela Avenida Osvaldo Aranha, uma das áreas mais movimentadas da cidade. Metade dos grafittis e painéis que se estendiam pelos cerca de 180 m de muro que circunda a frente do Estádio da Montanha foram cobertos por tinta verde, cor representativa do Farrapos Rugby Clube, uma das equipes que partilham a concessão do espaço público. A pintura, feita na tarde de segunda-feira, 9 de outubro, foi realizada por voluntários do clube à pedido da direção.

As obras, assinadas por artistas locais, de outras cidades e estrangeiros, eram remanescentes de dois projetos. O primeiro foi o “Muralismo — Arte ao alcance de todos”, criado com o apoio da Fundação Casa das Artes, e que passou a integrar o Arte de Verão, de 2011, que reunia além do grafitti, diversas atividades culturais; o segundo, em 2017, foi o Confronto Final, evento com foco na cultura de rua que também contou com o apoio da Casa das Artes e da Prefeitura.

Do multicor ao verde

De acordo com o diretor do Farrapos, Fabiano Ferrari, conhecido como Bicão, a ação tem a intenção de revitalizar o espaço, o qual via como “abandonado”. “Não é nada contra as obras, até porque a gente sempre as manteve lá. Mas elas já estavam apagadas, descascadas, desbotadas. A gente está pintando para dar uma renovada no estádio. Foi uma decisão do clube”, assinala.

Bicão diz, ainda, que o clube teve a autorização da Prefeitura há mais de um ano, da qual, inclusive, teria ganho os galões de tinta, mas por falta de voluntários o trabalho ainda não havia sido feito. “A gente tinha tinta, tinha autorização do passado. Então resolvemos deixar um negócio mais organizado. Estamos pintado um muro que ninguém mais dá bola. A ideia é revitalizar, porque está feio isso aí. O grafitti já foi bonito quando fizeram, mas já não esta mais. A ideia é dar uma cara de limpeza ao lugar”, pontua.

Segundo o secretário municipal de Juventude, Esporte e Lazer, Eduardo Virissimo, a pintura ocorreu sem o conhecimento da pasta ou da Prefeitura, o que, em sua visão, por se tratar de um espaço público, não poderia acontecer. Assinala, no entanto, que o clube alega ter recebido autorização da antiga gestão da pasta, há mais de um ano. “A gente não pode apagar as palavras conversadas entre o clube e um antigo secretário, mas desde que assumi, já tivemos várias reuniões para explicar que qualquer mudança feita no complexo esportivo teria que ser feita por nós”, assinala.

Ainda, conforme afirma Virissimo, a pasta já pensava em projetos de manutenção do espaço e em formas de transferir ou recriar as obras expostas no muro em outros espaços. Destaca que haverá uma reunião com os diretores do clube onde serão cobradas explicações sobre o caso. “Queremos entender porque tiveram essa atitude, pois a parceria do Poder Público com o Farrapos é muito boa. Além deles, o local é usado por outros clubes, escolinhas e pela comunidade em geral, é público. Por isso, todos que ocupam esse espaço têm que entender que qualquer ação lá tem que ter o consentimento da secretaria e do Prefeito”, diz. Em tom amenizante, acrescenta, que acredita se tratar de um mero erro de comunicação e que o clube não deve ser punido.

Hoje não temos regramento dentro de regimento do complexo, como termos de conduta ou penalidade. A gente nunca pensou que isso fosse acontecer, pois tínhamos reuniões e a diretoria do clube é integra. Precisamos entender onde foi o erro, qual o desentendimento
e construir junto para que não ocorra mais e que eles possam, talvez, reparar o que foi feito”, Eduardo Virissimo

A Secretaria Municipal da Cultura também se disse surpresa com o ocorrido. O responsável pela pasta, Evandro Vinicius Manes Soares, destacou o empenho da Administração Pública em valorizar a street art, bem como todas as demais formas de cultura de rua ou não. Citou como exemplos, o espaço destinado ao muralismo na Praça CEU e a mureta em frente ao antigo mercado Nacional. “Sem dúvida lamentamos. É uma situação que desagrada a arte e a cultura de nosso município”, lamenta.

Em acordo com o clube, na quinta-feira, 10, a Secretaria Municipal da Cultura pediu a manutenção de um dos murais que ainda não havia sido pintado. O painel com a imagem de três rostos de mulheres, de cerca de 10 metros, deve ser o único mantido. A parte restante, mais desgastada, também deve ser coberta de verde.

Parte ainda não pintada com grafittis mais antigos, já descascados, também deve ser coberta
A pedido da secretaria municipal de Cultura, arte feita em 2017 deve ser mantida

A visão dos artistas

Organizador do Battle in the Chypher, evento de hip hop que já acontece há 10 anos, e um dos nomes mais famosos da cultura hip hop de Bento, Pedro Ramon Festa, o Pedrinho, é um dos artistas que lamenta o ocorrido. Embora não tenha estado à frente dos eventos que promoveram os murais, assinala que eram alguns dos trabalhos de arte de rua mais antigos de Bento. “Desde os anos 1990 tinham grafittis espalhados, mas nesse formato de tela, com trabalhos que uniam artistas de rua e artistas plásticos, foi o primeiro. Foi mesmo inovador”, lembra.


Para além do valor simbólico e histórico, Festa lamenta que os trabalhos que foram cobertos por tinta eram feitos em telas removíveis, que poderiam ser retiradas e realocadas em outro espaço. Mais tarde, em 2017, outra parte do muro seria pintada em outro evento.


Guilherme Nerd, um dos artistas visuais que contava com obras no muro, aponta que a arte de rua é efêmera e sujeita a desaparecer seja pela ação humana ou do tempo. Apesar disso, também se diz incomodado com o ocorrido. “Em cidades grandes é normal, mas o que incomoda é que é uma cidade pequena, que já tem pouca arte. É uma perda para Bento e região, pois tinham artistas de diversos locais que estavam com trabalhos lindos ali”, destaca.

Já o grafiteiro Jackson Brum, que assina a obra que deve ser mantida no espaço, destaca que o trabalho teve o objetivo de revitalizar o espaço que se encontrava abandonado. “Como artista nossa meta é levar a arte para espaços onde ela não existia e possibilitar que pessoas que, muitas vezes, não têm acesso às galerias tenham algum contato com a arte ou pelo menos que, na rua, tenham um respiro de todo esse cinza”, comenta.