Editorial

Facções, o mal na contemporaneidade

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Em um ano marcado pela intensificação da guerra entre facções criminosas, a quantidade de mortes violentas em 2017 voltou a bater recorde no País, com 63.880 vítimas, o equivalente a 175 casos por dia, alta de 3,7% em relação ao ano anterior. O número absoluto de homicídios é o maior entre todos os países e a taxa de 30,8 registros por 100 mil habitantes coloca o Brasil entre os dez mais violentos do mundo. Neste cenário, Bento já assumiu a certo tempo a cadeira de uma das cidades mais violentas da Serra Gaúcha, com 44 assassinatos e um índice superior ao de Caxias do Sul.

Essa guerra, explicam especialistas, está ligada à tentativa de expansão do controle do tráfico de drogas pelo PCC, que deixou de ser aliado do CV há cerca de dois anos. Depois, há a corrida de ambas as partes para filiar bandidos e expandir a atuação em Estados onde nem sempre a imposição das regras dos paulistas é bem-vinda. Isso levou a disputas nas penitenciárias, que também se espalharam para as ruas com ramificações destas gangues, como o “Bala na Cara” e “Os Manos” no RS.

O avanço dos homicídios está associado não só à guerra de facções, mas à desestruturação de políticas de segurança e dificuldades de Estados em investirem devidamente na área. Entre os principais desafios, acentuados pela crise econômica, estão reequipar polícias, realizar concursos e até pagar salários em dia.

O avanço dos homicídios está ligado a guerra das facções e a desestruturação da Segurança Pública

As possíveis saídas são diversas em diferentes campos, não só da segurança. O ponto mais frequente citado por estudiosos é a necessidade de modernizar e priorizar a atuação contra o crime organizado, com foco em inteligência, de modo a desarticular os grupos financeiramente. A recuperação da segurança passa também pelo seu financiamento. No ano passado, R$ 84,7 bilhões foram aplicados por municípios, Estados e União na segurança, sendo a maior parcela (R$ 69,8 bilhões) pelos Estados, que são os responsáveis pelo funcionamento das Polícias Militares e Civis. Boa parte dos homicídios não é investigado e em pouquíssimos casos se encontra o culpado, fazendo com que a impunidade reine quando o assunto é violência letal no país. A média de homicídios solucionados no Brasil gira em torno de 6%.

O combate em caráter mais estratégico das facções é um consenso. O aspecto aparece, aliado à defesa de um maior protagonismo do Governo Federal na segurança, no documento “Segurança Pública é Solução”, lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelos institutos Sou da Paz e Igarapé, todos ligados ao debate do tema. O texto traz uma série de diretrizes e sugestões para os candidatos, dentre elas a criação de um Conselho Nacional de Inteligência sobre crime organizado, nos moldes do COAF, “capaz de articular os diversos órgãos de inteligência estaduais e federais com foco no crime organizado interestadual e transnacional”. Resta aguardar para ver como o novo presidente e os respectivos governantes vão encarar o tema.

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