Editorial

Entre o pífio e o meritório

Os números, de uma forma geral, sempre fizeram parte do jornalismo ou mesmo de ferramentas sociais e de transparência. Seja em cálculos de média, estatísticas, análises ou mesmo comparações, algarismos sempre apresentaram verdades absolutas, exatas e sem margem de interpretação, certo? Talvez não. O palco caótico em que o Brasil conduziu seu espetáculo nos últimos anos imergiu antigas certezas em futuras dúvidas. E assim, o que até o final de 2014 poderia ser considerada uma margem negativa ou positiva, passou a ser vista com subjetividade, fruto da obscuridade econômica cotidiana.

Exemplo disso pode ser encontrado no Acordo de Resultados do Executivo Municipal, proposto em 2016 para ser concluído até dezembro do ano passado. Conforme a análise realizada pelo Semanário em conjunto com o Gabinete do Prefeito, das 211 metas propostas para todas as secretarias de Bento, 115 foram devidamente concluídas. Ou seja, 54% das propostas foram alcançadas, e é aí que entra o dilema.

“54% de alguma coisa é ruim ou bom? Depende do contexto”

Se tomarmos pelo viés de que nossa cidade tem uma das economias mais fortes do estado, arrecadando cerca de R$ 1,3 milhão por dia, pode-se dizer que 54% de qualquer coisa envolvendo a administração municipal não será suficiente. Algo deixou de ser feito, poderia ter sido repensado ou mesmo buscado em outras fontes para concretização. Há quem arrisque até “dar nome aos bois” e pontue quais secretários poderiam ter feito mais, ou quais não corresponderam com suas funções.

Entretanto, também há o outro lado da balança, que certamente coloca a bela Capital do Vinho em paridade a diversos municípios do RS. Amargamos durante todo o ano as irresponsabilidades dos governos Estadual e Federal. Não cumprimento de acordos, atrasos em repasses, entraves, prazos expirados, tudo isso impacta diretamente na municipalidade e a execução de qualquer tarefa ou meta, por mais simples que seja. Nesse contexto, alcançar 54% de qualquer coisa já passa a ser um feito meritório.

A verdade é que análises numéricas envolvendo cidades passaram a ter mais imaterialidade do que sustentabilidade. Fatores externos abalam profundamente o planejamento, tornando quase um ato profético dizer o que vai ocorrer nos setores das cidades ou mesmo se os resultados expostos são bons, ruins ou dependem de mera interpretação contextual.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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