Editorial

Entre a lei e a fiscalização

A agricultura brasileira tem sua reputação frequentemente questionada, mas é necessário que prevaleça a verdade, com base em fatos comprovados. O Brasil é líder na produção e na exportação de soja, milho, cana, algodão, laranja, etc. Essa liderança se deu em paralelo ao desenvolvimento social do campo e maior consciência e respeito ambiental. Mas ainda há muitos desafios e um deles tem sido a convivência e redução dos danos causados pelas pragas agrícolas (insetos, doenças e plantas daninhas).

Essas pragas são controladas utilizando todas as medidas disponíveis, incluindo métodos genéticos (resistência das plantas), biológicos (inimigos naturais), culturais (rotação de culturas, erradicação, vazio sanitário), legislativos (evitar introdução de novas pragas) e químicos (produtos fitossanitários/defensivos). O manejo químico com produtos fitossanitários é um dos mais utilizados. Sem eles, a produção agrícola sofreria redução da ordem de 50%.

Por se tratar de um assunto sensível, muitos acabam por emitir opiniões infundadas ou fundamentadas em pesquisas de má qualidade. Existem insinuações relacionando o uso de produtos fitossanitários à maior incidência de câncer, malformação congênita, resíduos em leite materno, etc. O uso de produtos fitossanitários não é uma particularidade da agricultura brasileira. Os agricultores dos Estados Unidos, do Japão, da Alemanha, da França, da Espanha, da Austrália, enfim, os agricultores de todos os países do mundo lançam mão dos defensivos agrícolas para garantir a produção e a qualidade da mesma. No Brasil, o uso dos produtos fitossanitários é uma atividade regulamentada pelo Poder Público federal.

Não se trata, portanto, de uma atividade proibida. O uso desses produtos deve seguir a recomendação aprovada pelo órgão oficial, que está na bula de cada produto, e as prescrições feitas por profissional habilitado. Atualmente o agricultor, para sobreviver no mercado, precisa controlar seus custos de forma rigorosa. Os produtos fitossanitários são caros, representam item relevante na planilha de custos e não são utilizados de forma deliberada e descontrolada pelos agricultores.

“O uso de agrotóxicos faz a agricultura ser frequentemente questionada”

Sempre que abordamos o uso de agrotóxico, duas questões importantes me vêm à cabeça: economia e saúde. Claro que o ideal seria uma agricultura sem o uso de pesticidas. Mas o custo da produção e de produtos sem agrotóxicos ainda é muito alto em nosso país. O sobrepreço, no varejo, fica entre 20 e 30%. E a discussão ganha mais importância ainda porque o Brasil está entre os maiores consumidores dos produtos agrícolas do mundo, além de ser o maior da América Latina. Segundo o censo agropecuário de 2016, 80% das propriedades rurais no país usam defensores agrícolas.

Há muitas limitações legais, de fiscalização e sociais para controlar a exposição dos trabalhadores rurais ao agrotóxico. Temos de ter em vista também os impactos no meio ambiente, que podem afetar a saúde de quem trabalha e mora no campo, como a contaminação de solo, de águas superficiais e subterrâneas.

Como o uso desses produtos é grande e fundamental para a produção em larga escala, o contrabando de substâncias proibidas, que são mais baratas, invade as lavouras, escancarando para todos nós a pior face do capitalismo: produzir com o maior lucro possível, sem a preocupação com a saúde dos trabalhadores rurais. Já que o uso acaba se tornando inevitável, dadas às necessidades de mercado, o melhor seria ampliar a fiscalização para aplicação correta, com dosimetria adequada. Mas, como a velha conta do serviço versus demanda nunca fecha no país, o que vemos é o uso desenfreado dos defensivos, sem a devida cautela que deveria ser aplicada quando o que se tem em jogo é a vida humana.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

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