Editorial

Entre a bomba e os lobos

A transformação das prisões em “panelas de pressão”, é um processo que há muito vem sendo observado, tanto no aspecto criminológico quanto no social. E como toda boa cidade desenvolvida e referencial, também possuímos nossa própria “bomba relógio”, apenas com o diferencial de que a nossa está instalada no coração da cidade. Até aí nenhuma novidade, como também não causa estranheza o fato do Executivo investir pouquíssimo na manutenção destes sistemas e, de tempos em tempos, ter que arcar com as consequências. A ausência de respostas concretas ao caos que tomou conta das penitenciárias deixa transparecer que o Estado não está disposto a combater o cerne do problema. A construção do novo presídio até pode alentar questões como a superlotação, mas não sejamos ingênuos, o sufoco está longe de passar.

Nesta semana um princípio de motim entre detentos do Presídio Estadual de Bento Gonçalves alertou nossos sentidos para um tema extremamente sensível e perigoso, a atividade de facções dentro da casa prisional da Capital do Vinho. O que parecia assombrar apenas em locais distantes, está também vívido entre nós. Na quarta-feira, 18, um agente da Susepe teve sua vida ameaçada por um apenado que se diz integrante de um grupo de Porto Alegre, após averiguar uma situação nos corredores da Casa. Ocorre que o meliante em questão estava revoltado por ter sido impedido de deixar sua cela para realizar um “acerto de contas” com outro detento, ou seja, ficou enfurecido por não ter a possibilidade de ceifar os dias de outra pessoa.

Atingindo alto nível de organização, esses criminosos utilizam os presídios – locais que deveriam servir, em teoria, para devolver cidadão reformados à comunidade – como suporte de comando para arquitetar e difundir violência e criminalidade até para além das fronteiras. O avanço desenfreado e acentuado destes grupos ridiculariza o Poder Público, quando verdadeiras escolas do “banditismo” satirizam todo um sistema legislativo.

Mas o mais consternador nesse assunto é a total omissão do Governo quanto a medidas definitivas. A impotência se manteve a mesma, enquanto a população carcerária cresceu 170% nos últimos 15 anos. Só a Casa de Bento trabalha com um excesso de 150% no número de presos mantidos entre suas quatro paredes.

Precisamos urgentemente de uma estratégia efetiva para combater o crime organizado. A sociedade e as entidades não podem ser reféns da violência coordenada das facções. Estamos entre o estouro e a liberação dos lobos, e não temos a mínima ideia de para onde correr. Esperar que a crise carcerária chegue a patamares extremos – se é que o comando já não é dos presidiários em grande parte das penitenciárias – é uma atitude frouxa, que só transparece que o Poder Público não tem adotado o posicionamento correto. À medida que os grupos organizados têm liberdade para avançar e se instalar em pequenas cidades, cresce proporcionalmente as ameaças à estabilidade social.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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