Editorial

Dualidade

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

A situação atual nas escolas públicas é assustadora: violência, drogas, desrespeito e slogans ideológicos em lugar de formação intelectual. A maioria das escolas estaduais não dispõe de condições estruturais mínimas para atender a comunidade. Faltam livros, laboratórios e kits de ciência; a internet é lenta ou está indisponível. E os alunos não têm tablets. Não é de estranhar, portanto, que os estudantes aprendem muito pouco e que muitos deles abandonem a escola antes de concluir o Ensino Médio. Em síntese, as escolas mantidas pelo governo ainda não são bons ambientes de aprendizagem.

Prova disso esta relacionada aos dados expostos pelo Ipea com relação ao Enem 2017, onde a capacidade de aprendizado exato e a ventilação de opinião por meio de textos é instigada como termômetro da aprendizagem. Das cinco melhores escolas de Bento Gonçalves elencadas pelo índice do programa, quatro são da rede privada e a última tem como mantenedor o Governo Federal.

Mas afinal, isso prova que as escolas privadas são melhores que as públicas? Responder à pergunta requer não apenas uma análise de evidências sobre o que funciona em educação, mas também uma compreensão de que esse tópico está diretamente relacionado com a constituição histórica e política dos sistemas educacionais em diferentes países. Do ponto de vista do debate teórico, há autores que discutem tanto os pontos positivos quanto negativos da existência desses dois sistemas educacionais. Os primeiros debates argumentavam que as escolas públicas desempenham papel preponderante na construção dos valores democráticos. Mais tarde, esses argumentos foram rebatidos, mostrando que alunos de escolas privadas tendem a desenvolver valores cívicos e redes de relacionamento social mais consistentes com o fortalecimento de uma sociedade civil.

As escolas privadas também apresentam uma vantagem sobre as públicas, já que possuem mais autonomia para escolher os docentes e incentivá-los, uma vez que não precisam cumprir com os estatutos docentes existentes na carreira pública. Escolas públicas e privadas também diferem em nível de complexidade. Como as escolas públicas precisam lidar com uma maior variedade de demandas dos estudantes e de suas famílias, possuem uma complexidade maior, podendo apresentar conflitos e incoerências internas. Em contraste, as escolas privadas, por selecionarem alunos e serem escolhidas pelas famílias, possuem uma maior probabilidade de ter seus objetivos alinhados.

Para chegar a uma conclusão sobre qual é a melhor escolha, é preciso pensarmos em dois aspectos: 1) se é verdade que as escolas privadas são uma alternativa à gritante má-qualidade do sistema público, 2) também é verdade que em comparação com outros países, os alunos das melhores escolas particulares brasileiras não atingem o nível de alunos medianos de redes públicas em países desenvolvidos.

Contudo, em meio a tantas dúvidas apresentadas, estendemos o púlpito do debate para a única verdade absoluta deste artigo. Enquanto as famílias e a população em geral não compreenderem que precisam participar mais do processo educacional, as dificuldades acadêmicas não serão superadas. É preciso chegar a um ponto em que a educação de qualidade seja o mais importante na vida das crianças e dos jovens.

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