Editorial

Do lado de lá do piquete

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Êxodo rural é o deslocamento ou migração de trabalhadores rurais que vão em direção aos centros urbanos. Na região Serrana, esse fenômeno populacional tem sido causado pelo crescimento da indústria e vida urbana, pois o processo de mecanização do campo, aliado a falta de tecnologias de informação, resultou na redução e abandono de vários postos de trabalho. Por lógica, esses trabalhadores tinham um sonho de melhorar de vida e até de enriquecer, no entanto, quase sempre essas perspectivas eram frustradas pela dura realidade.

Contudo, o que poucos parecem perceber é que o problema resulta em diversos entraves. No campo, gera a diminuição da população rural no país, escassez de mão-de-obra e automaticamente diminui a produção de alimentos e matéria-prima, impactando inclusive na inflação, além de aumento no custo de vida. Conforme estudos, cerca de 70% dos produtos consumidos atualmente no país são oriundos da agricultura familiar.

Há um processo iminente de envelhecimento da população no campo, sendo que em muitas ocasiões os jovens deixam o campo para estudar nos centros urbanos e nunca mais retornam para viver. Assim, com o passar do tempo, as famílias são forçadas a deixarem o campo, porque os idosos já não conseguem mais suprir as necessidades que a vida no campo demanda. Quando os idosos falecem, muitas vezes os filhos se desfazem das propriedades, porque não possuem intenções de continuar vivendo no meio rural.

Forçar a saída de idoso do campo, tal qual a permanência de jovens, é violar a natureza e o livre arbítrio.

Nas cidades, encaram a violência, ocasionada principalmente pela falta de oportunidade de trabalho nos espaços urbanos; a precariedade dos serviços públicos, que corresponde a um fator que ocorre em várias partes do país, por motivos variados; o desemprego, originado pelo excesso de trabalhadores disponíveis para as atividades laborais, bem como pela desvalorização do trabalho, dentre outros fatores e, ainda, o trânsito, como consequência da precariedade no transporte público e o excesso de pessoas vivendo nos centros urbanos.

Os municípios rurais também acabam sendo afetados pelo êxodo rural. Com a diminuição da população local, diminui a arrecadação de impostos, a produção agrícola decresce e muitos municípios acabam entrando em crise. Há casos de cidades que deixam de existir quando todos os habitantes deixam a região.

Com a manutenção deste cenário é possível prever três possibilidades: ou entraremos em uma nova era de industrialização agrícola em massa, com empresas de larga escala investindo no “campo” para suprir uma nova necessidade alimentícia, ganhando quantidade, mas perdendo em qualidade; talvez urbanizemos a agricultura, nos moldes do que ocorre em outros países asiáticos, criando grandes estufas em centros e tentando atrair a juventude para o que seria a novidade; ou, quem sabe os Governos tomem ciência do preocupante panorama e atuem de forma efetiva na manutenção dos jovens no campo.

Forçar a saída do idoso do campo, tal qual a permanência de jovens, é violar a natureza e o livre arbítrio. O que precisa ser feito é encontrar um meio termo para que não fiquemos ainda mais reféns das grandes corporações, mas que também consigamos promover qualidade de vida e evolução para os que nos proporcionam o alimento. As cidades dependem do campo, então precisamos dar o devido valor a quem lá está.

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