Editorial

Desconfie de tudo

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

A disseminação de notícias falsas com fins políticos não é um fenômeno novo. A antiga “imprensa marrom” já tratava de denegrir a imagem de uns e outros em jornais e revistas. O poder de denegrir ou incensar imagens sempre foi valorizado, daí sempre ter existido uma associação íntima entre poder constituído e imprensa. Assim, ao abordar o tema nos dias de hoje, devemos olhar o passado e ver o que ele tem a nos ensinar. E considerar que o problema agora é mais sério pois é mais intenso, uma vez que a internet e as redes sociais expandiram o horizonte de circulação das informações a níveis impensáveis décadas atrás.

Indo direto ao ponto, sabemos que o Facebook, por exemplo, foi essencial para a vitória de Donald Trump, nos Estados Unidos, e a do Brexit, no Reino Unido. Sabemos também que as redes sociais impulsionaram boatos, factoides, mentiras e pós-verdades de forma avassaladora em ambas as campanhas. Em terras tupiniquins, nesta semana, um novo desdobramento das investigações do Ministério Público que debruça esforços para desvendar um possível esquema de compra de votos para aprovação do Plano Diretor, cumpriu mandados de Busca e Apreensão na Câmara de Vereadores. Menos de 30 minutos após o início da ação, portais de notícia da cidade já estampavam o nome de quatro parlamentares que supostamente seriam os alvos da perquisição, nomes estes que a Promotoria não revelou e sequer assentiu na entrevista coletiva dada horas mais tarde, no mesmo dia.

O cenário é gravíssimo pela crescente importância das mídias sociais no cotidiano e pela aproximação da campanha eleitoral de outubro. O problema, numa dimensão maior, deve abranger as notícias propositalmente imprecisas, as notícias falsas e a sua difusão. Como tratar? Não há solução fácil. Nem única. Até mesmo pelo fato inconteste de que o tema trafega no campo da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. Por outro lado, as notícias falsas impactam as verdadeiras e, sobretudo, as decisões reais de cidadãos. Além do mais, a mescla de notícias falsas com verdadeiras cria uma espécie de “para-realidade”, que age diretamente no espectador.

Como parar a engrenagem da mentira e falsidade para voltar ao convencimento pela palavra?

O que dizer então de um período pré-campanha eleitoral quando os candidatos e os partidos políticos precisam convencer o eleitor que representam uma boa opção de governo? Daí o convencimento pela palavra tornar-se não raramente convencimento pela mentira. A mentira como meio de chegar ao poder e, em seguida, de administrá-lo em seu benefício próprio ou de seu grupo. Como as campanhas eleitorais são longas e custosas, outras formas de convencimento são usadas e o ideal democrático grego cede lugar à fraude; o demagogo deixa de ser aquele que tem habilidade no uso honesto da palavra e passa a ser aquele que mente melhor e usa de todos os meios para impor seu nome.

Sabemos que existem leis e resoluções, inclusive do TSE, que trataram do tema nas eleições passadas. Devemos, porém, ir além e, ao lado da legislação existente, incentivar uma atitude proativa das autoridades competentes, da mídia tradicional e dos grandes operadores das redes sociais a fim de reduzir o efeito negativo que as notícias duvidosas vão provocar em nosso processo eleitoral e em nossa titubeante democracia.
Como parar a engrenagem da mentira e falsidade para voltar ao convencimento pela palavra? Talvez a mentira seja parte intrínseca da vida política e não seja possível eliminá-la do jogo, mas certamente não na dimensão em que ela existe atualmente. Desconfie de tudo que lê, vê ou ouve.

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