Blog Henrique Alfredo Caprara

De Igrejas, Mães de Santo e Ciganas

Os estudos e pesquisas cientificas avançam e as autoridades no assunto tem divulgado amplamente o resultado. Uma delas: a espiritualidade, a oração ajuda a, inclusive, recuperar enfermos, Quando criança, na vida rural eu era devoto de Nossa Senhora da Salette, a padroeira de “Barracão City”. Tão devoto que, nas festas, ficava a meu encargo e de um amigo a rifa de uma Santa. Quando me tornei urbano, a partir dos 12 anos, me reciclei em todos os sentidos, passei a ser frequentador, aos domingos, da missa das dez, na Matriz Santo Antônio. Aos poucos fui observando o “modus operandi” da gurizada. Uns iam ajudar o Sacristão a tocar o sino, outros iam ajudar o Padre sendo coroinha. Essa militância nos bastidores da Igreja, aquela sala em que os Padres se vestem e todos se preparam para auxiliá-lo, me dava o privilégio de assistir a missa, naqueles bancos que ficavam ao lado do altar.

Foi assim que, de repente, na ausência de não sei quem, o Sacristão me convidou a tocar o sino, quer dizer aprender a tocar o sino. “Vamos lá eu disse”. E puxa a corda, e puxa a corda, e o sino não tocava, e o sacristão: “força, força”. A minha força resultou em que de repente lá estava eu batendo com a cabeça no alto, porque até tocar o sino da Igreja requer uma técnica que eu não tinha. Minha atividade junto ao campanário ficou apenas no “puxar a corda”. Continuei serviçal nos bastidores, até que um dia, substituindo não sei quem que não veio, me escalaram de coroinha. Eu não sabia o que fazer no altar mas, como não tinha medo de nada embora não sabendo quase nada, vesti “Prada”, aquela mini batina, e lá fui. Azar duplo: eu não sabia quando tinha que tocar o sino e, para piorar o Padre que ia rezar a missa era o Pe. Manica, a cidade inteira tremia só de ver o Pe. Manica. Coroinha de primeira viagem e com o Pe. Manica? Um herói beneditino! Eu me limitava a ser figurante, quando de repente, o Pe. Manica dá um berro e diz: “não vai tocar o sino guri”? E eu tocava o sino. Daí a pouco eu imaginei que era a hora de tocar o sino e trililin, trililin, e o Pe. Manica berra de novo, “não é agora a hora de tocar o sino guri”!

Disfarçadamente eu procurava Jesus no altar, lembrava de Nossa Senhora da Salette, de “Jesus é meu Pastor……”, das palavras da minha avó paterna “Virgine Santíssima”, e ficava firme. O importante era que, depois da missa, havia a distribuição de ingressos para o matinê das quatro da tarde no Cine Popular, que era dos Padres e ficava ao lado da Igreja onde é a entrada do Shopping Bento. Quem ajudava a tocar o sino e servia como coroinha ganhava ingresso para o cinema. Então, “tudo pelo social”. Éramos uma turma de uns seis guris, para se livrar da missa do Pe. Manica e de novas experiências traumáticas, desenvolvemos uma técnica de entrar no matinê, sem prestar os serviços de coroinha ou de tocador de sino. Enquanto três distraiam o recebedor de ingressos, com aquele papo “me deixa entrar, tô sem dinheiro”, três entravam pela cortina nos cantos (era de veludo vermelho). No domingo seguinte se fazia o rodízio. Na matinê os filmes de Roy Rogers, Rocky Lane, Hopalong Cassidy, Touro Sentado, Gerônimo, Cavalo Doido. Quando o Roy e seu cavalo branco perseguia os bandidos o cinema vinha abaixo, levantava uma poeirama danada, a gente saia de lá “cuspindo tijolo”, literalmente.

Os Padres nunca limpavam aquele cinema e tinham um projetor que quando o Roy chegava perto do bandido, pronto, rompia o filme, parava a projeção e vinha aquela vaia. Como eu já disse, nos filmes de índio eu torcia para os índios, contra os invasores de terras e soldados. Mais crescidinho, a partir dos 18 anos, comecei a ter outras experiências espirituais. Era tempo das ciganas lerem as mãos e, quando vinha vindo duas ciganas, andam sempre em dupla como os Brigadianos, lá tava eu de mão estendida. A leitura da linha das mãos era sempre a mesma, de cigana para cigana, de acampamento para acampamento. Mas me dava uma certa paz de espírito saber que o “Demo” não estava me rodeando. Lá pelos 18-19 anos, não me perguntem como, me colocaram como Vice-Presidente Administrativo do Esportivo.

O Presidente era Vitale Camilo, o Vice de Futebol Roberto Ross, o Técnico Enio Andrade, a estrela do time Neca. Aí eu aprendi outro tipo de espiritualidade: alguns jogadores não entravam em campo sem um estímulo dentro da sunga. Se o Soly Pompermayer não fizesse isso em alguns, vinha o “ui, ai, poxa”, uma simulação de distensão muscular de última hora. Mais adiante presidi, em 2007-2008-2009, o Esportivo. Ai era o seguinte: os jogadores tinham um guru, o Fernando Oxalá, muito amigo dos atletas e meu também até hoje. O Clube bancava esta “assistência espiritual” e, no dia que eu disse “não posso mais bancar” os jogadores dividiram os custos entre si. Atletas, ao jogar fora de Bento, não entravam no vestiário sem a “limpeza”. “Tudo bem dizia o Fernando”, e lá iam os atletas, colocar o fardamento, fazer as orações e “vamos a luta, unidos venceremos, hoje se diz tamo junto”. O nosso técnico tinha um Pai de Santo que ele gostava, ali da Eulália. Um dia fui junto, era véspera de um jogo difícil.

Depois de um ritual longo e rico em seus detalhes, vinha a pergunta do técnico Anadon: “vamos ganhar? De quanto”? E o Pai respondia: “o que eu posso dizer é que vai ser um jogo difícil”. E assim foi, muito difícil, mas ganhamos. Um Pai de Santo dizer que tu vai ganhar um jogo e por quanto é a mesma coisa do que um Padre dizer que tu vai pro céu e o número da cadeira que tu vai sentar ao lado de Deus. Avançando no tempo, um belo dia eu estava hospedado em Salvador, no Hotel Othon. No pátio tinha uns taxistas. Fui lá e disse: “me leva para a melhor Mãe de Santo ou Pai de Santo da Bahia”. “Mas qual? ele perguntou”. A que tu considera a melhor” eu disse. E lá fomos morro acima. Chegando lá, a tradicional espera, como fila do SUS ou consultório médico. Chegando a minha vez, separei as conchas da cortina de bambu e entrei. Ela tinha cara de poucos amigos por estar focada no seu trabalho. Disse “senta”, sentei. Búzios daqui, búzios de lá, búzios chocalhando nas mãos e ela disparou, sem mais nem menos: tu tens duas filhas uma se chama……outra se chama……com uma tu está encontrando dificuldades, tu mora numa cidade onde tem muita inveja, muitas desavenças, tu trabalha no ramo de comunicações, tu vai voltar para a política. Sai de lá impactado, “não é possível” falei, “ela acertou tudo, menos que eu vou voltar para a política”. Não é que muitos anos depois eu voltei para a política? Acerto 100%, fico pensando até hoje quando ouço sobre a Bahia, de onde vem tamanha mediunidade senão de Deus? “Diabos”, como diria meu avô, acabou o espaço, volto ao assunto na próxima semana.

Vale lembrar que o sino da Igreja hoje é acionado por um sistema eletrônico, sistema que por anos ficou desativado “porque gastava muita luz”. Hoje está ativado. Como é belo o som dos sinos! Às seis da tarde eu queria sempre estar no Centro para ouvi-los de perto.

Sobre o autor

Henrique Alfredo Caprara

Henrique Alfredo Caprara

Diretor do Sistema S de Comunicação
www.jornalsemanario.com.br

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