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‘Contantes’ para ensinar a contar

Lucas Araldi
Escrito por Lucas Araldi

Oficina de formação de escritores, contemplada com verba do Fundo Municipal de Cultura, está com inscrições abertas em Bento Gonçalves

A crise do mercado editorial brasileiro se aprofundou consideravelmente em 2018. As livrarias Cultura e Saraiva, que representam cerca de 40% do total de vendas do setor, pediram recuperação judicial. Dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgados no ano passado, apontam que o faturamento do setor caiu 21% entre 2006 e 2017. Além disso, uma pesquisa da Universidade de Brasília (UNB) revela que o perfil dos autores brasileiros segue o mesmo padrão desde 1965: homens, brancos e que vivem no eixo Rio de Janeiro/São Paulo.
Na prática, isso demonstra que o mercado é pouco aberto a novos nomes e que aparentemente parou no tempo. Na contramão do cenário nacional, o projeto Contantes, financiado pelo Fundo Municipal de Cultura, veio com o objetivo de qualificar autores bento-gonçalvenses e identificar novos talentos literários do município.
Segundo os organizadores, o objetivo do projeto é reunir pessoas que praticam a escrita literária e, com isso, desenvolver habilidades úteis para a criação de contos. Os encontros serão semanais, a partir de março, e devem seguir até agosto. Para participar, será necessário passar por um processo de seleção.

Antologia de contos

O escritor Douglas Ceccagno, doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), irá ministrar as aulas da oficina. Para ele, existe uma juventude que quer escrever e cada vez mais se mostra necessário conhecimento sobre os mecanismos da construção da literatura. “A partir do projeto, vamos ter um espaço de encontro para as pessoas conversarem, trocarem experiências”, comenta.
Um dos itens previstos no projeto é a publicação de uma antologia de contos. Ceccagno explica que serão escolhidos alguns textos produzidos na oficina para compor a obra. “Vamos trabalhar melhor em cima deles e esse livro vai ser uma seleção dos melhores, que pode ser com autores novos autores experientes”, prevê.
Ele observa que as oficinas de criação literária se popularizaram em vários lugares do Brasil e que no município já foram feitas atividades mais curtas. “A ideia então é fazer encontros semanais para discutir a criação de narrativas de contos, para trabalhar aspectos como tempo, personagens e espaços”, comenta. As aulas devem se basear sobretudo em leitura, comparação e escrita.

Concepção do projeto

A expectativa do especialista em gestão cultural e um dos idealizadores do curso, Rogério Rodrigues, é de que haja cerca de 40 inscrições para a oficina. “Assim que fomos contemplados com o fundo e conversando com amigos, sempre há quem vem perguntar”, observa. O conto apresentado na inscrição precisa ser inédito.
Rodrigues comenta também que o cenário literário de Bento cresceu bastante, ao mesmo tempo em que ainda não há um lugar para discutir criação literária. “Nas horas vagas também escrevo e toda vez que queria fazer um curso, tinha que buscar longe. Por isso, vai ser um exercício de escrita, que visa trocar ideias”, comenta.
A ideia do nome veio do termo cantantes, que significa alguém que canta muito. “O ser humano é um ser social, que sempre transmitiu conhecimento através da palavra, da conversa, da história oral, que às vezes se torna tão fantástica e se transforma em ficção. Então as pessoas que contam, são contantes”, explica.
Como contrapartida, ao final do curso os alunos terão que comprar duas mudas de árvores nativas para criar o bosque dos contantes. O lugar ainda precisa ser definido. “Como nós vamos imprimir livros, é uma forma de contribuir”, prevê.

Criatividade e análise do trabalho

O bento-gonçalvense Guilherme Furlan escreve por hobby e pretende se matricular na oficina, inclusive relata que já escreveu o conto de seleção. “Tenho boas expectativas, conheço o professor Douglas e sei que as aulas serão bastante interessantes”, avalia.
Ele entende a formação teórica como um elemento importante na construção da escrita, na medida em que possibilita analisar o próprio trabalho. “Isso é muito importante, porque abre a visão para os diferentes estilos de escrita e a minúcias do processo de criação de cada autor”, afirma.
Seu gênero favorito é o realismo fantástico, que mistura elementos mágicos com a realidade. “É uma mistura poderosa. Sobre o processo criativo, para mim não existe mistério, é sentar e escrever. Assim as ideias surgem durante o caminho”, comenta.
Furlan diz não conhecer muito sobre o mercado editorial brasileiro, mas percebe que há dificuldade de fazer contato com as editoras, que sequer respondem a um e-mail. “Acho que têm medo de arriscar, mas também entendo a dificuldade de lidar um público que pouco, ou nada, lê”, afirma.

Serviço

O que: Contantes – Oficina de Criação Literária
Quando: encontros semanais de março até agosto de 2019, na Dom Quixote Livraria (noite a definir).
Quanto: Gratuito
Inscrição: Deve ser feita online, até o dia 28/02, e exige a apresentação de um conto, assinado com um pseudônimo. Mais informações estão disponíveis no Facebook do projeto ( https://www.facebook.com/projeto.contantes/).
Seleção: Serão selecionados, no mínimo, dez e, no máximo quinze candidatos. Ela será feita por um corpo técnico a partir da análise de potencial das narrativas. O resultado será divulgado na página do projeto, no dia 8 de março.

Sobre o autor

Lucas Araldi

Lucas Araldi

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