Editorial

Causa e efeito

O Brasil registrou 61,6 mil mortes violentas em 2016, de acordo com o Anuário Brasileiro da Segurança Pública, que contabiliza latrocínios, homicídios e lesões seguidas de morte. O dado representa um crescimento de 3,8% em comparação com 2015, sendo o maior patamar da história do país. Em média, foram contabilizados 7 assassinatos por hora. Com o crescimento do número de mortes intencionais, a taxa de homicídios no Brasil por 100 mil habitantes ficou em 30.

No domingo, as ruas de Bento foram palco para outros dois assassinatos a sangue frio, corroborando para a triste estatística e cimentado a parcela social de culpa na parede dos crimes violentos do ano. E o que vem com isso é, novamente, a sensação de que não estamos seguros. Voltam os sentimentos que nos levam a pensar que em cada esquina umbrosa, encontros com desconhecidos em ruas mal iluminadas ou eventos do cotidiano, um mal súbito, impulsionado por problemas e descasos sociais, espreita o menor deslize para atacar. Perdemos em qualidade de vida, perdemos no turismo e perdemos como sociedade, pois perdemos vidas humanas.

Há uma convicção quase generalizada de que o problema deve ser combatido, principalmente, por melhorias no campo da educação, passando pelo cumprimento de requisitos básicos de justiça social e respeito ao cumprimento dos direitos fundamentais de cidadania. Em face da insegurança atual, ocorre o progressivo isolamento dos indivíduos dentro de suas casas, apartamentos e condomínios nas cidades brasileiras. Tal mudança de comportamento passa a sublinhar outro dado alarmante, que é a criação de um estado de espírito coletivo fomentador de neuroses, síndromes de isolacionismo e diminuição do sentimento de solidariedade.

Urge que a questão da segurança pública seja seriamente encarada, não apenas por meio de medidas factuais, nem como tema repetitivo de núcleos de estudos e debates, os quais certamente poderão enquadrar-se em circunstâncias oportunas, mas, basicamente, através de projetos consistentes, objetivos e com franca visibilidade, de preferência viabilizados por meio de ampla conexão nacional entre os órgãos de segurança.

Falar sobre a atual insegurança é maçante, o tema é bastante batido, as frases já soam repetitivas, mas enquanto pensamentos, políticas e atitudes não mudarem, pouco se alterará. Enquanto pensarmos em combater o resultado, sem questionar e atuar no que é sua causa, pouco contribuiremos às próximas gerações e a dissolução de adversidades há tempos nítidas no cenário comunitário. Presídio nenhum terá êxito onde a família e a sociedade fracassaram.

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Cristiano Migon

Cristiano Migon

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