Editorial

Capacidade e oportunidade

O mercado de trabalho mudou e ele se impõe ao exigir um novo perfil de profissional: aquele que está em constante mutação. A crise, a recessão, o fechamento de postos de trabalho, a queda de contratações via CLT, a globalização, o aumento do empreendedorismo (muitos por necessidade), tudo isso se apresenta em um momento de transição em que é fundamental para o trabalhador buscar um novo modelo de carreira que o prepare para o futuro. Exceto áreas específicas, esqueça o tempo de ser especialista em uma única área de atuação. Esse tempo acabou. Hoje, o profissional disputado pelas organizações é o que consegue ser multitarefa em um mercado em frequente mudança.

Se ainda não enxergou que o cenário é outro, é melhor abrir os olhos.

Há duas interpretações no novo contexto laboral que se constrói. A primeira delas, positiva, impõe a necessidade de uma constante melhora profissional e, porque não, de relação interpessoal dos trabalhadores e proponentes a vagas. Em circunstâncias ideais, deixando de lado as conhecidas adversidades em conseguir educação de qualidade de forma gratuita, a elevação no grau de exigência para vagas até parece a decisão correta. E isso fica explicito no meio trabalhista de Bento Gonçalves, porém, por aqui não há como interpretar de maneira progressiva tais imperatividades. Nós somos a segunda linha de compreensão.

Ocorre que, embora o número de vagas captadas em 2017 tenha sido maior do que em 2016 no FGTAS/Sine, as exigências pré-requisitadas para preenchimento dos postos também aumentaram. É claro, o empregador que o melhor disponível, a pessoa mais adequada, que possa dar o melhor resultado. E para isso, realiza seleções “pente fino” nos departamentos de RH. Contudo, o que bloqueia a concepção e entrava a inclusão sócio-laboral é que Bento Gonçalves mudou, e com ela, boa parte da proporção étnica e cultural de sua população.

Abrimos as portas da cidade para mais de 1.500 imigrantes, mas não abrimos as cancelas de nossas empresas a eles.

E isso faz com que todos os dias, na penumbra da manhã, filas de pessoas que se agarram ao fio de esperança que é, talvez um dia, viver com dignidade e em condições próprias, se aglomerarem na Marechal Floriano em busca da sonhada oportunidade. O que precisa ficar claro, e essa não é uma questão que envolve apenas senegaleses, haitianos ou oriundos que qualquer parte, é que explorar um universo em que é preciso se ter experiência para qualquer coisa, mas não se estende a mão para dar o primeiro voto de confiança é absurdo. E nessa situação tragicômica, com requintes de inépcia, que mantemos os necessitados desempregados e as vagas em aberto. Lembre-se, a capacidade pouco vale sem a oportunidade.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

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