Editorial

Caça interesseira

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

O período entre os anos 1930 e 1960 é chamado de “época da fantasia” em muitas partes da Amazônia. “Fantasia” eram as peles de felinos exportadas para o mercado da moda norte-americano e europeu. Só a venda de pele das espécies mais exploradas – que incluíam jacarés, peixes-boi, veados, porcos-do-mato, capivaras e ariranhas – movimentou cerca de US$ 500 milhões (em valores atuais) durante o auge desse comércio. De 1904 a 1969, algo em torno de 23 milhões de animais silvestres de ao menos 20 espécies foram mortos para suprir o consumo de couros e peles. Esses dados, apresentados em um artigo publicado na revista Science Advances, referem-se apenas ao que ocorreu nos estados de Rondônia, Acre, Roraima e Amazonas.

Embora boa parte dos animais citados anteriormente não sejam encontrados na Serra Gaúcha, isso não quer dizer que por aqui a caça predatória não seja também uma realidade. De acordo com dados da Associação Riograndense de Proteção Ambiental (Arpa), a prática irregular perdura durante os anos, fazendo, na maior parte das vezes, pássaros e pequenos mamíferos alvos fáceis para rifles alinhados e gaiolas modernas.

Os estudos também apontam para a morte de 1,9 milhão de mamíferos aquáticos, como o peixe-boi e outros que passam parte do tempo na água e parte em terra, como as lontras. Também morreram 4,4 milhões de jacarés-açu, um dos maiores predadores do Brasil, com seus 4,5 metros de comprimento em média, cobiçados pelo couro negro. A extração de sua pele motivou o aparecimento de grandes curtumes na região Norte.

Todo ano, milhões de animais são retirados da natureza brasileira

Redes de tráfico escoam animais silvestres por estradas que cruzam grande parte do país, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). De 2005 a 2016, o órgão emitiu mais de R$ 700 milhões em multas por crimes envolvendo animais silvestres. No mesmo período, só recolheu apenas 2% desse valor.

Todos os anos, 38 milhões de animais são retirados da natureza brasileira. Apenas quatro milhões são vendidos, principalmente no Sul. O restante acaba em gaiolas, é solto em locais inadequados ou morre vítima dos maus tratos. Um animal retirado da natureza reage à presença do ser humano e tem dificuldades para crescer, se alimentar e se reproduzir em cativeiro. O papagaio, a arara, o mico e o jabuti, ao contrário do que muitos pensam, são silvestres. Eles pertencem à natureza e nela vivem melhor.

As principais vítimas são aves canoras ou de grande beleza. Além disso, o comércio ilegal é estimulado pela procura de criadores e colecionadores, pet shops, indústrias, pesquisa ou biopirataria. Para garantir que espécies silvestres sigam cumprindo seu papel, temos que consolidar e ampliar áreas protegidas e fortificar ações conjuntas para coibir essas práticas ilegais. Denuncie, não compre, faça sua parte.

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