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Crise na Saúde: Atraso nos repasses preocupa o setor

Última parcela paga pelo estado aos hospitais da região foi de agosto; manutenção do cenário pode afetar serviços

A saúde pública encerrou o ano de 2018 diante de uma situação difícil devido a falta de repasses vindos do governo do Rio Grande do Sul. Os quatro hospitais da região projetam novos problemas de recursos, o que pode gerar cortes nos serviços de atendimento via Sistema Único de Saúde (SUS).

A falta de repasses foi recorrente durante todo o 2018. De acordo com as casas de saúde, o último depósito realizado pelo governo estadual foi na segunda semana de dezembro e referente ao mês de agosto. O valor girou em torno de R$ 150 mil. Com isso, gestores precisaram readaptar soluções para garantir o pagamento de salários e serviços, bem como para fechar as contas.

O Tacchini Sistema de Saúde que contempla hospitais em Bento Gonçalves e Carlos Barbosa teve um déficit histórico. É o que revela, o Superintendente Executivo, Hilton Roese Mancio. “Fechamos com a maior inadimplência da história, algo em torno de R$ 8 milhões. Deste total, R$ 5,5 milhões referem-se a recursos do governo estadual, incluindo serviços contratados com a Secretaria Estadual de Saúde e IPE. Nos contratos com o SUS, o déficit foi de R$ 24 milhões”, aponta.

Do sistema público, a instituição recebeu R$ 36 milhões, mas os custos operacionais chegaram a R$ 60 milhões, entre honorários, procedimentos e demais serviços. Caso o quadro não mude para 2019, Mancio projeta problemas. “Obrigatoriamente será necessário cortar custos e reduzir déficit. A situação, como está, ultrapassou todos os limites viáveis”, revela.

O cenário é quase idêntico no Hospital Beneficente São Carlos, de Farroupilha. Por lá, as coisas só não foram piores no encerramento de 2018 graças a ações políticas, como revela Janete Toigo D’Agostini, superintendente geral. “A nossa situação só não foi tão negativa devido as emendas parlamentares. A gente priorizou salários, pagamento de honorários médicos, materiais e medicamentos. Sempre colocamos em primeiro lugar os pacientes e seguiremos assim”, assegura.
Itens como alimentos e conserto de equipamentos, segundo a superintendente, foram obtidos mediante a ajuda do grupo de voluntários ou doação da própria comunidade de Farroupilha.
Assim como outros hospitais, o último repasse feito pelo Estado ocorreu no mês passado. “No dia 14 de dezembro foi depositado a parcela referente o mês de agosto, algo em torno de R$ 150mil, o que já fez uma grande diferença para fecharmos as contas”, relata.

Janete explica como funciona a gestão, que tem uma parceria com o município. “Todas as verbas são encaminhadas ao Fundo Municipal de Saúde e depois são repassadas ao hospital. Temos um contrato com município de fornecimento de serviços. Se nós cumprirmos ele a pleno, nós recebemos, caso contrário, há descontos”, menciona.

Para esse ano, caso não haja alteração no cenário, mudanças serão colocadas em práticas. “O orçamento do município será o mesmo do ano passado. Vamos ter que trabalhar dentro do que vamos receber. Se tiver que diminuir serviços, produtividade, vamos fazer, sempre dentro do orçamento. Não temos como sobreviver se não vier nossas necessidades”, sustenta.
Entre cirurgias, internações e no Pronto Atendimento, o hospital recebe mensalmente 18 mil pessoas.

A reengenharia financeira pela falta de repasses também precisou ser realizada no Hospital São Pedro, em Garibaldi. Conforme o administrador do hospital, Jaime Gnatta Kurmann, assuntos considerados urgentes conseguiram ser equacionados até o final de 2018. “As questões salariais conseguimos quitar com nossos funcionários e alguns fornecedores. Mas foi muito complicado devido ao impasse e demora que afetou em outras questões. Esse processo todo nos dificultou e muito”, conta.

Sobre a projeção para 2019, Kurmann endossa a preocupação das outras instituições da região. “Diminuir atendimentos e serviços nunca é nosso objetivo, mas se a situação se mantiver como a de 2018, teremos mais problemas. A saúde em primeiro lugar, mas temos que ser responsáveis em termos administrativos”, alerta.

Novo governo analisa cenário da dívida

De acordo com a Secretaria de Saúde do Estado, a dívida com as prefeituras é de R$ 589,5 milhões e com hospitais filantrópicos e Santas Casas é de R$175 milhões. Além deste montante, as instituições hospitalares reclamam de R$ 131 milhões em atrasos do IPE Saúde.
Ao ser questionada logo após assumir o cargo de secretária estadual da Saúde, Arita Bergmann garantiu dialogar com as instituições sobre as dívidas após uma análise detalhada do passivo. Além disso, Arita disse que, por enquanto, a prioridade é pagar em dia as parcelas de janeiro e dos meses subsequentes, para impedir que a dívida siga crescendo e evitar um colapso na área.

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Guilherme Kalsing

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