Editorial

Armas para a paz

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

É equivalente a um avião caindo todos os dias.” A frase de Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dá a dimensão da tragédia apresentada anualmente pelas edição do Atlas da violência. O Brasil registrou uma média de 32 assassinatos para cada 100 mil habitantes – índice que torna o país o décimo mais perigoso do mundo, na companhia apenas de nações muito menores e mais pobres. Em números absolutos, foram 59.080 homicídios – um recorde mundial. Enquanto o mundo inteiro se tornou mais seguro – hoje, capitais como Nova York, nos Estados Unidos, têm uma taxa de homicídios menor que a de um século atrás –, o Brasil se tornou mais perigoso. O país passou do patamar de 50 mil mortes por ano, observado entre 2005 e 2007, para o de 60 mil, desde 2014. E no mesmo patamar, padece Bento Gonçalves, que registrou nesta semana, sua 41ª execução.

O homicídio é a principal causa de morte dos homens jovens entre 15 e 19 anos, responsável por 54% do total. Não há indicador mais claro da incompetência da administração pública. O Estado brasileiro fracassa em sua principal atribuição: manter as pessoas vivas. Embora a média de idade das mortes na cidade seja um pouco maior, na casa dos 32 anos, os números seguem destoando da imagem turística do município.

A violência em nossos dias alcançou níveis assustadores. As pessoas, de um modo geral, sentem-se inseguras a ponto de transformarem seus lares em fortalezas, ou como alguns dizem, prisão domiciliar; são impedidas de usufruir o direito de ir e vir livremente.

Um dia, talvez, possamos fazer do princípio da paz a nossa ideologia de vida

Não há lugar totalmente imune ao processo de violência humana, isso porque ela tem várias facetas. A sociedade está perplexa e não sabe como se comportar diante desta realidade incômoda. Não é uma questão de pessimismo; é um fato que precisa ser enfrentado com seriedade. A violência não é tão somente um problema de segurança pública, da polícia, da justiça, ou da ausência de ações políticas dos nossos governantes como afirmam alguns. A sociedade tem sua parcela de responsabilidade. É uma situação ampla e complexa, que precisa ser discutida com participação de todos segmentos sociais.

É importante haver reflexões profundas sobre o tema e a história pode contribuir muito para se fazer um diagnóstico correto. Importa também, eliminar a ideia simplista, na qual a pobreza produz violência; a pobreza é apenas uma das causas.

De fato, existem vários componentes que precisam ser identificados e uma das melhores formas seria um pacto social, onde o poder público, especialistas, pesquisadores, estudiosos e sociedade pudessem canalizar inteligência e recursos para combater um dos grandes males da humanidade.

A violência resulta da desintegração da sociedade que, por sua vez, ocorre porque não existe respeito humano. O combate à violência é muitas vezes ineficiente por causa do método utilizado. Normalmente,usa-se a violência para combatê-la.

Disse um especialista em cultura da paz, que se a sociedade se mobilizasse em busca da paz do mesmo modo como se mobiliza para a guerra, seria facílimo extinguir a violência humana. Eis aí uma das sugestões: Cultura da Paz.

Como se cultiva a paz? Eliminando qualquer tipo de violência. A maneira de falar; o timbre da voz; um sorriso autêntico; atitudes pacíficas, reações faciais, tudo isso pode exprimir a cultura da paz. Um simples bom dia é suficiente para transmitir paz. Repetir no pensamento todas as expressões e imagens que possam produzir calma, tranquilidade, tolerância, respeito, amizade e perdão porque fazem muito bem ao corpo e à alma. É ingenuidade pensar que estas ações façam algo ao caos instaurado no país a curto prazo, mas quem sabe, um dia, possamos fazer destes princípios nossa ideologia de vida.

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