Editorial

Aos que foram e aos que ficam

Amanhã é dia dos mortos ou finados, daqueles que findaram sua trajetória entre nós. Será, no futuro, o dia de cada um de nós. Quem ousa encarar este destino inelutável? A data serve como alento aos vivos que desejam prestar homenagens aos que já se foram, mas também para refletir sobre algumas questões existenciais. De onde viemos? Para onde vamos? O ciclo se encerra com o último suspiro? Quem nos receberá adiante? Ao compasso dos questionamentos, muitos artifícios surgem pelo caminho – a fé, a religião, a superstição – a fim de evitar a frustração de respostas insípidas.

De fato, não há resposta inequívoca que explique o fim. Certo mesmo é que o mundo continua, na perspectiva de outras pessoas, de outras sociedades. Especular além disso ameaçaria o poder do agora e da capacidade que cada ser humano tem de superar suas perdas e suplantar suas dificuldades. Nada nem ninguém dura para sempre. Ainda assim, é possível doutrinar a morte. O indivíduo será lembrado pelo legado que deixou.

Engana-se quem vincula a vida à harmonia biológica. É possível deixar este mundo muito antes. Basta a ausência de propósito. Sem objetivos, somos nada, menos que um sopro de vento. Quem deixa de viver, vivo, descarta as próprias potencialidades. Os mortos, ao menos, regozijam-se de descanso imaculado. Os mortos-vivos, bem… estes permanecerão dentro do torvelinho do sofrimento, incapazes de enveredar por qualquer direção diferente daquela que sua convicção incorrigível aduz.

O Dia de Finados é momento de prestar tributos. Rememorar, relembrar o carinho e, principalmente, celebrar a continuidade. Um olho se fecha, dois se abrem, eis a aventura humana na terra. E a pessoa que não mais se vê, é possível senti-la. Ela está ali, de um modo ou de outro. Muitos irão percebê-la. Outros irão ignorá-la. Mas ela está ali, compartilhando energias universais que nós, seres noviços, somos incapazes de compreender.

A humanidade é uma grande árvore que renova seus frutos com o passar do tempo, dando e tirando, passando por intempéries, mas ao final mantendo sua incolumidade. Já quebramos galhos, já vimos o nascimento de brotos. Neste dia, sem tristeza. Quem foi, foi. Nada se pode fazer. Quem ficou, entretanto, saiba que sempre há tempo para construir novos destinos. Não jogue a toalha. Renasça na vida para que sua alma dure a eternidade.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

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