Editorial

Adoção tardia, amor sem idade

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

O termo “adoção tardia” vem do fato de que, como mostram os dados, após os três anos de idade, o índice de pretendentes para adoção caí bastante. Muitas vezes são consideradas velhas demais e, por já terem passado por muita coisa, os pretendentes acabaram preferindo recém-nascidos ou bebês. Muitas dessas crianças vivem os medos de nunca serem adotadas e não terem um lugar para ir após completarem a maioridade.

Dados oficiais mostram que há muitos pretendentes para poucas crianças na fila da adoção. Em agosto de 2018, por exemplo, a Coordenadoria Estadual da Infância e da Juventude do Rio Grande do Sul contabilizava 620 crianças aptas para adoção e 6,2 mil pretendentes habilitados. O número, que parece positivo, acaba mostrando uma realidade bem diferente. De acordo com a CEIJ, enquanto 88% dos meninos e meninas aptos para a adoção têm entre 11 e 17 anos, 90% dos pretendentes desejam crianças de até seis anos, no máximo. Em Bento Gonçalves, os números consoam com a realidade gaúcha.

Adotar uma criança é um salto enorme no escuro, mas o resultado pode ser fantástico

Segundo analistas na área, o principal aspecto alegado pelos pretendentes para evitar a adoção tardia é o medo de que o adotado já ‘tenha uma personalidade formada’, o que traria dificuldades na educação, pois ele não aceitaria os padrões estabelecidos pelos pais adotivos. De fato, parece haver uma dissonância entre a expectativa dos pretendentes e a realidade. A maioria dos casais ficam presos na ideia do que eles consideram a criança ideal e não aceitam a possibilidade da criança real. Muitos querem que a criança venha como um papel em branco e ignoram tudo o que já aconteceu com ela, que faz parte do que ela é. A adoção é uma situação que vem para dar conta de algum tipo de desencontro – seja na maternidade, seja na criança que perdeu um familiar ou que veio de uma situação de abandono – e, para lidar com isso, as pessoas tentam simplificar aquilo que não é muito simples. A busca por generalizações é muito grande para minimizar as questões que devem ser feitas. Nesse sentido, adotar uma criança que já fala, já pensa, já acontece, causa medo.

Compreender que a adoção tardia tem, sim, seus desafios particulares, que é um processo longo e delicado de estabelecimento de confiança e que muitos aspectos dela não são fáceis é essencial. Mas também é importante perceber que dela pode sair uma relação de amor tão profunda (se não mais) quanto em qualquer outra circunstância. Adotar uma criança é um salto enorme no escuro, mas o resultado pode ser fantástico.

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