Paulo Vicente Caleffi

Abaixo do solo

Lembro que na administração pública de Bento Gonçalves foram dois os prefeitos que abriram a Avenida Marechal Deodoro para aumentar a capacidade da canalização de esgoto. Na época, já passadas quatro décadas, havia apenas um edifício, na esquina da Saldanha Marinho.

Desde então todo o entorno do centro de Bento Gonçalves cresceu verticalmente e os edifícios aumentaram consideravelmente o número de famílias residentes.
Por outro lado, a permeabilidade do solo foi reduzida com a substituição do paralelepípedo pelo asfalto e pelas construções que substituíram os terrenos vazios.

Sobre isto ouvi o enfático comentário de um arquiteto:
– “A canalização do esgoto em Bento Gonçalves é uma bomba relógio e certamente vai explodir.”

Não se tratava de um arauto da desgraça fazendo profecias. Era a balizada palavra de um experiente construtor de edifícios.

De minha parte, simples cidadão, fico imaginando o que poderia acontecer se houvesse um colapso na canalização do esgoto e as lembranças me reportam a Saldanha Marinho, entre a José Mario Mônaco e a Treze de Maio, quando o bueiro entupiu e invadiu a casa da Dona Zelinda. Foi uma desgraça.
Toda a rua ficou com cheiro de merda e por alguns dias a situação foi de desespero. Melhorou um pouco quando a Cooperativa Aurora ou a Du Mont, lá em cima do morro, lavou alguma pipa e o cheiro mudou para vinho transformando a água marrom na cor de suco de uva estragado. O leitor consegue imaginar a situação?
Uma residência é uma família. Numa casa algumas pessoas usam um, dois ou três banheiros, uma cozinha e todos os dejetos vão para o esgoto público. No mesmo espaço daquela residência é construído um edifício e são cinquenta famílias, e os dejetos vão para o mesmo esgoto público que já existia. É lógico que vai congestionar.
Piora a situação quando o esgoto cloacal e o pluvial utilizam uma única canalização. Se por um lado a água da chuva empurra os dejetos e limpa os canos, por outro lado pode encontrar um gargalo e …. vai dar merda!

Caminhamos sobre calçadas, transitamos em ruas pavimentadas, não nos preocupamos com a água da chuva que corre pela sarjeta e muito menos quando largamos a descarga no vaso sanitário. Tudo é normal “pero hai que preocuparse” como diz o castelhano.

Ser proativo é antecipar-se para prevenir.

A administração pública, onde se inclui também o legislativo com o seu poder fiscalizador, pode pensar que o problema deverá ser enfrentado quando acontecer, se acontecer. Certamente o prefeito de então, quando acontecer o estouro da bomba relógio, será questionado pelo cidadão e levará a culpa pelo estrago.

Diz político de carreira:
– “Obra enterrada não dá voto!”

É preciso ter coragem para desarmar esta bomba relógio ou será que ela não existe?

Sobre o autor

Paulo Vicente Caleffi

Paulo Vicente Caleffi

Empresário e cronista do Jornal Semanário.
redacao@jornalsemanario.com.br
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