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A sombra da violência contra os idosos

Lucas Araldi
Escrito por Lucas Araldi

Em Bento foram registrados 68 casos desde março de 2017, mas especialistas apontam que maioria pode estar velado

Muitas vezes ela é invisível. Acontece no âmbito familiar, mas é abafada por amigos e parentes próximos. Em outras, vêm à tona por meio de denúncias. Geralmente se manifesta pelo abandono, roubo, espancamento, humilhações, ameaças e até, em casos mais graves, se transforma em cárcere privado. De acordo com especialistas ouvidos pelo Semanário, a violência contra o idoso se caracteriza pela invisibilidade e pelas suas diversas facetas, sejam elas psicológicas ou físicas.
Dados demonstram que uma agressão acontece a cada 10 minutos no Brasil e que em 70% dos casos o agressor é o próprio filho. Em Bento Gonçalves, foram registrados 68 casos envolvendo violência no Conselho Municipal do Idoso (Comui) em pouco mais de um ano, sendo que quase metade das vítimas (44%) têm entre 71 e 80 anos.
De acordo com informações da Polícia Civil, a legislação atual prevê ferramentas legais para proteção a esta parcela da população, como nos casos de discriminação, deixar de prestar assistência, abandono e exposição a perigo, etc. Segundo o delegado Arthur Reguse, da Delegacia de Polícia e Pronto Atendimento (DPPA) de Bento Gonçalves, os casos mais comuns se caracterizam pela apropriação de bens das vítimas. “Para a ocorrência deste tipo de crime é necessário o dolo, ou seja, a manifesta vontade do agente em reter, apropriar-se dos bens/valores do idoso para seu próprio proveito, causando prejuízo”, avalia.
Há delegacias especializadas na proteção de idosos e na investigação dos casos de violência somente nas cidades de Lajeado, Santa Maria e Porto Alegre.

Violência invisível

Na experiência da assistente social do Lar do Ancião e presidente do Comui, Márcia Braga Moraes, praticamente todas as manifestações de violência começam com fatores psicológicos. “A maioria envolve a questão financeira, porque até que o idoso está oferecendo dinheiro, está indo. Mas quando não tem mais aquela verba, ou algo assim, já começa a violência física”, observa.
Ela ainda comenta que muitos casos, por ocorrer no âmbito familiar e envolver pessoas muito próximas, acabam não chegando aos órgãos competentes. “A gente sabe de várias situações daquelas que vêm a tona, que viram notícias ou boletins de ocorrência. Mas e aquelas que não vêm? Que são encobertas pela família?”, questiona.
Embora considere que existam políticas públicas e instrumentos legais para prevenir esse tipo de situação, Márcia não consegue ponderar o quanto essas ações são efetivas. “Acho que sempre precisa de mais políticas públicas, porque os idosos ou as pessoas que sofrem algum tipo de violência desse tipo têm medo de revelar. Elas geralmente são vítimas da única pessoa que dá algum auxílio”, ressalta.
Márcia aponta que as equipes da assistência social e da saúde, da Prefeitura, detectam vários casos de violência, da mesma forma que o Comui recebe denúncias. Após isso, esses casos são encaminhados para o Ministério Público (MP). “Agora se realmente é feito algo a mais, nós não sabemos”, afirma.
O Lar do Ancião já recebeu idosos vítimas de violência encaminhados pelo MP, mas no momento não há nenhum que esteja nessa situação. A responsável pela administração do Lar, Isabel Righes, reitera que a maior parte de casos tinha como motivo questões financeiras. “Já aconteceu de uma vovó que veio diretamente do MP, que sofria violência física, e foi encaminhada pelo promotor”, lembra.

 

“Precisamos analisar o contexto”, avalia geriatra

A médica geriatra Tamara Chiele conta que se depara com casos de abandono com frequência, mas agressão é menos comum. Ela acredita ser necessário analisar essas questões de uma forma mais abrangente, a partir do ponto de vista clínico, psicológico e social.
De acordo com a médica, em determinadas circunstâncias o agressor ou aquele que abandona pode estar doente e também precisa de cuidados, por isso, o acompanhamento por várias especialidades é essencial. “É muito complexo a gente julgar, apontar o dedo, dizendo que as pessoas estão fazendo alguma coisa errada sem entender todo o contexto que está por trás. Tem que ampliar um pouco mais, dar um passo para trás e olhar com um pouco mais cuidado.”, avalia.
Ela diz que ocorrem casos onde o cuidador, que é também um familiar, acaba sobrecarregado ou há uma relação conflituosa com o idoso, que pode ter abandonado a família ou feito algo mais grave no passado. “Muitas vezes pegamos famílias desestruturadas por inúmeros motivos. Então exite amor, mas também existem problemas”, salienta.

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