Editorial

A saúde não pode esperar

A esta altura, no que se refere à política do país, você, assim como a grande parte do povo brasileiro, já deve ter chego à conclusão de que é somente nos artigos da Constituição Federal que a saúde é um direito de todos. O Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores sumidouros de verba do Governo Federal, e com pouca perspectiva de recuperação, ao menos a curto prazo. Apesar de hoje termos mais acesso à educação, principalmente por conta dos recursos de ensino a distância (EAD), há muitos profissionais desqualificados – sobretudo aqueles que se preparam em faculdades que não oferecem a aparelhagem ou o suporte educacional necessário. Somos vítimas da má administração financeira, que desperdiça o pouco que tem, gastamos um tempo precioso em salas de espera com triagens erradas, falta de controle ou erros de diagnósticos. Somos, em síntese, de forma tragicômica, uma catástrofe político-administrativa com a missão de evitar outras catástrofes.

Os avanços conquistados pela ciência nos últimos 40 anos trouxeram esperança para milhares de pessoas que sofrem de doenças hepáticas, cuja salvação está no transplante. O aprimoramento das técnicas cirúrgicas, a descoberta de medicamentos imunossupressores cada vez mais eficazes, métodos avançados para a conservação dos órgãos doados e maior compreensão dos fenômenos imunológicos e dos mecanismos de rejeição marcaram uma nova fase na história da medicina. Mas colocamos tudo a perder, pois colhemos os frutos a um sistema público falho, de governos omissos e irresponsáveis e de políticas de amparo que mais prezam pelo auxílio de grandes empresas no vasto mercado que é a saúde, do que pelo bem-estar da população.

A fila de espera para cirurgias eletivas — não urgentes — no Sistema Único de Saúde (SUS) chegou a aproximadamente 904 mil procedimentos no país. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Cirurgias de catarata, hérnia, vesícula e varizes estão entre as mais demandadas pela população que depende da rede pública. A espera pode chegar a mais de 10 anos.

Entretanto, comete grande equívoco quem dá ares forasteiros ao dado. Conforme informações da Secretaria de Saúde de Bento Gonçalves, o número de pessoas que aguardam por uma intervenção de média-complexidade aumentou 47% entre 2016 e novembro de 2017, atingindo 1.586 pessoas. O mesmo constata-se quando abordados os dados referentes a cirurgias de alta-complexidade. Mais de 870 pessoas esperam pela boa vontade do Executivo para poderem retomar as vidas.

Lamentavelmente, a saúde não é – e não tem sido nas últimas décadas – prioridade para os nossos governantes. O desinteresse é tão grande que, nas últimas eleições, poucos candidatos tinham alguma proposta minimamente consistente para a melhoria do setor. A situação é agravada pelos 450 mil cidadãos que perderam seus planos de saúde no último ano, por causa do aumento do desemprego. Além de reduzir ainda mais a receita no setor privado, é certo que esses ex-beneficiários contribuirão para inchar ainda mais a já combalida estrutura de atendimento do SUS, em um momento bastante crítico.

O retrato que a saúde nos mostra do Brasil é muito ruim – e, se nada for feito, vai piorar.

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

editoria@jornalsemanario.com.br

Deixe um comentário