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A história da última tanoaria do Vale dos Vinhedos

Fábio Becker Loppe

Em Monte Belo do Sul, cidade com pouco mais de 2.500 habitantes, Seu Eugênio, de  62 anos, o filho, Mauro, de 26 anos, e sete funcionários mantêm vivo um dos ofícios ancestrais que correm o risco de se extinguir: a tanoaria, ou seja, a fabricação de barris de madeira, sobretudo, de carvalho. Atualmente comandada pela terceira geração, o negócio familiar dá prosseguimento e garante a evolução da arte iniciada de forma rústica por Miguel Arcângelo Mesacaza, há mais de 50 anos no pequeno porão da casa onde viveu com o filho Eugênio, na Linha Argemiro Alta, interior do município.

Três gerações de tanoeiros

Após trabalhar por uma década no Daer e muitos anos mais fabricando farinha de trigo e milho em um moinho movido a água no arroio Santa Bárbara, Miguel juntou suas economias para comprar um lote de 2,5 hectares de terra, onde se estabeleceu com a família e passou a plantar produtos de subsistência, além de parreiras de Isabel, uva comum na região. Como a produção não era suficiente ao sustento da família, quase que por instinto, e já em idade avançada, ele daria início há uma tradição, que mal sabia, estava no sangue dos Mesacaza. Com seu machado em mão, em meados dos anos 1960, entrava na mata em busca de madeira para construir seu primeiro barril.

Se hoje a empresa tem capacidade de produzir 30 barris novos de 225 litros por semana, a realidade na época era outra. Como explica seu neto, Mauro, as primeiras peças que tomavam formas pelas mãos de Miguel levavam muito mais tempo, com poucas ferramentas, mas muita destreza. “Ele fazia no porão de casa, ia para o mato, derrubava a árvore e serrava a madeira curvada, sem auxílio do fogo, peça por peça. Um barril de 300 litros levava entre sete e 10 dias”, conta. Foi o avô, inclusive, que criou as primeiras ferramentas, algumas das quais, ainda existentes como uma desempenadeira e uma serra fita de madeira.

Mauro Mesacaza, terceira geração de tanoeiros

Aos 15 anos, Eugênio já ajudava o pai e fabricava ele também suas primeiras peças. O gosto por trabalhar com madeira foi o impulso que faltava para o negócio ganhar corpo, atravessando décadas. Em 1981, a empresa foi registrada e o jovem se dedicou a fabricação de tonéis grandes de 80 a 100 mil litros, além de cuidar da manutenção de barris em vinícolas e cooperativas da região, estancando vazamentos, fazendo a limpeza interna e a parafinação. Mas foi na década de 1990, com o primeiro grande pedido, que tudo mudaria de patamar.

Conforme conta Mauro, a Miolo, querendo investir na fabricação de vinhos finos e envelhecidos em carvalho, solicitou 72 barris. “Eles importavam a madeira e a gente fazia a mão de obra dos barris. A madeira já vinha nesse padrão de ripas de 1m, mas nós ainda não tínhamos maquinário, curvávamos as peças uma por uma. Foram quatro meses para entregar”. O suor e o esforço trouxeram frutos e um novo desafio. A Miolo fez um novo pedido, agora de 400 peças. “Meu pai se assustou e disse para encontrar outro, que do modo como trabalhávamos não havia condição de atender”, lembra.  Foi então que começou a busca por maquinários como a adueleira, que corta as peças deixando as pontas mais finas e o centro – barriga do barril – com maior espessura, encontrada em um ferro velho e, mais tarde desempenadeira, furadeiras, torno, entre outros.

A crise dos barris e a mudança de mercado

Não é complicado imaginar que o sucesso da fabricação de barris de madeira seja garantido na Serra Gaúcha, região que representa aproximadamente 90% da produção de vinho no país. E, de fato, esse pensamento era verdade: até os anos 2000, quando, com um preço bem inferior, manutenção mais simples e vida mais longa, os barris de inox e polietileno acabaram ganhando o mercado.

Pequenos produtores e aqueles que produziam vinho colonial para consumo familiar passaram a apostar nas novas matérias-primas, enquanto a venda de barris de carvalho se tornou escassa, atendendo um pequeno mercado de vinícolas finas.  “Antigamente existiam muitos tanoeiros em Bento, Caxias e região. Até as vinícolas, quando não tinham tanoarias próprias, pelo menos possuíam as ferramentas para fazer a manutenção dos tonéis. Mas quando surgiu o inox, o pessoal, ou trocou a madeira pelo inox, ou começou a trabalhar com esquadrias, alguns ainda deixaram os barris de lado e foram produzir móveis”, explica Mauro.

Enquanto os tanoeiros foram desistindo da profissão e adaptando suas habilidades para novos negócios, seu “Eugênio”, “cabeça-dura”, como definiu o filho, resolveu se manter na profissão. Hoje, mantém a última tanoaria de todo o Vale dos Vinhedos, e a longevidade da empresa, por mais estranho que possa soar, não se deve ao mercado do vinho, mas a uma bebida tipicamente brasileira: a cachaça. “Apesar de estar numa região vinícola, 80% do nosso trabalho é para cachaça, que aceita outras madeiras e mesmo barril reutilizado”, explica.

Atualmente a tanoaria conta com capacidade para produzir 30 barris de carvalho por semana, mas a demanda não chega a isso. Em contraponto, só em 2019, já foram vendidos mais de 300 barris para cachaça, whisky e cerveja. A cerveja, inclusive, é outro nicho que começa a ganhar força. Mauro conta que a procura de cervejeiros artesanais por barris já ultrapassou a busca de barris para vinho. “O consumo de cerveja artesanal subiu muito. O pessoal está fazendo em casa e a região já tem escolas e ingredientes. Já há 300 produtores locais, e a busca por barris está aumentando. Como a cerveja, ao contrário do vinho que só aceita barris de carvalho de 225 litros, permite mais criatividade, aí vendemos diferentes tipos de tonéis, com madeiras e tamanhos distintos”, finaliza.

“Tradição que está no sangue”

Eugênio e Mauro Mesacaza

Em Belluno, comuna da região de Vêneto, o relógio de ferro da catedral trás encrustado a assinatura da família Mesacaza. É deste local, ao Norte da Itália, que o pai de Miguel partiu para chegar à Serra Gaúcha. E é aí também que ainda se encontra a maior concentração de Mesacaza no mundo, que talvez se encontre o motivo que levou Miguel a tentar produzir seu primeiro barril.

Em viagem à Belluno com a intenção de conhecer suas raízes, não foi só o relógio de aço da catedral que fez Eugênio se encantar com as relações estreitas com as matérias-primas utilizadas em seus barris. “Descobri na Itália que tem Mesacaza que gosta de trabalhar com madeira e outros com ferro. Encontrei uns primos que trabalham com madeira, esculpindo imagens. Essa ligação vem de sangue”, conclui.

Um pouco sobre a arte de fazer barris

São dois séculos para que os orvalhos das regiões frias da França atinjam a idade certa para o corte. As toras são, então, cortadas no tamanho padrão de 1 a madeira seca na estufa ou no tempo por dois anos, antes de ser levada ao navio e percorrer mais de 10 mil km antes de chegar ao Rio Grande do Sul, pelo preço de R$33 mil o metro cúbico, material suficiente para produzir nove barris. Esse é apenas o processo que antecede a fabricação do barril de carvalho francês, a obra maestra da tanoaria, vendida a partir de R$5 mil a unidade, e destinado aos vinhos finos.

Já para whisky, cachaça e cerveja, as pipas saem por volta de R$1500, podendo ser barris de vinho restaurados (descartados pelas vinícolas e recomprados pela tanoaria), ou de madeira de reflorestamento (Cerejeira, Cabreúva e Grápia), cada qual com seu aroma e sabor distintos, e como duração de até 40 anos. O processo também é menos trabalhoso: de 40 a 50 anos para que seja feito a serra da árvore, e descanso de seis meses para as toras.

Se a matéria-prima passa por técnicas distintas, na tanoaria, por sua vez, o processo produtivo se altera só na última etapa: a tosta. “Barris de vinho passam por tostas longas de 1h a 1h30, em temperatura de 180º C; para Bourbon a tosta é de 350ºC, por meia hora, a intenção é queimar a madeira, para que o carvão funcione como um filtro para a bebida, enquanto para o vinho, a intenção é apenas liberar aroma”, explica Mauro.

 

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