Andressa Borges

A cretina arte de recomeçar

Andressa Borges
Escrito por Andressa Borges

Mais vezes do que eu teria planejado, tive que recomeçar minha vida. Eu me mudei mais vezes do que eu gostaria, ganhei e perdi dinheiro mais vezes do que eu gostaria, confiei em pessoas erradas mais vezes do que poderia.

Recomeçar é uma pseudo esperança que, como Roberto, acha que daqui para frente, tudo vai ser diferente. Enquanto olho para a minha nova parede branca que carece de uma televisão, o mundo lá fora continua o mesmo. Pessoas indo e vindo, reclamando, comendo, passeando, dormindo. Eu passeio pelos cômodos diversas vezes para entender onde estou. Meticulosamente estudo a disposição das coisas, olho de diversos ângulos. Ficou prático? Ficou bonito?

Mas porque recomeçar poderia ser só uma ilusão? Na verdade, como a maioria das coisas na vida, depende da nossa atitude em relação a isso. Podemos mudar sem precisar recomeçar, mas recomeçar pode ser um incentivo. Assim como também pode não significar nada.
Recomeçar é fazer as mesmas coisas de antes mas com outra perspectiva, com outros anseios. Recomeçar exige maturidade ao entender que você abrirá mão de algumas coisas e ganhará outras. Entender isso é um dos principais quesitos na hora de dizer: sim, eu quero mudar!

Às vezes me pergunto se essa vai ser mesmo a minha vida, alguns meses de bonança, e depois, zás! Piso em um campo minado. Alguns livros têm centenas de páginas e uma história linear. Outros são cheios de capítulos. Se a vida é mesmo um livro onde nós somos os autores, o Mestre deve ter me colocado em um livro de crônicas.
As pessoas mais sábias, veja bem, as mais sábias que eu conheço, vivem recomeçando. Ou melhor: elas têm o dom de recomeçar quantas vezes forem necessárias e mesmo assim continuam com um brilho inexplicável no olhar. É admirável a força com que elas seguem suas vidas. Parece que elas entendem divinamente que tudo aquilo é necessário e normal. Se tem uma coisa que eu peço sempre, é que eu não seja uma velha ranzinza e que eu possa passar pelas adversidades sem perder o meu carisma (tsc). Hoje por exemplo, está difícil me aturar.

Percebo que apesar de ser muito agarrada ao termo “lar” e gostar de estabilidade – não sou daquelas que larga tudo para ir morar na praia, – no fundo mesmo gosto é de superar obstáculos (olha eu aqui dando a dica para o Universo, beijo me liga!). Falando baixinho, porque no momento estou sem horário disponível, sabe que estou até ficando craque nisso? Aguento como uma criança crescida que prende a respiração na hora da vacina para não sentir dor. Ela sabe que é necessário. Eu também. Ela sabe que não é a melhor sensação do mundo. Eu também. Ela sabe que depois disso ela ganha um doce e precisa ser forte até o fim. Eu estou de dieta.

Talvez essa seja a minha saga ou talvez eu só tenha muito tédio e atraia isso para minha vida. Não sei se gosto, acho que estou um pouco cansada, mas talvez eu tenha aprendido a apreciar, porque é o que temos para hoje.

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