Editorial

A banalidade em puxar o gatilho

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Um movimento em falso, um disparo precipitado, uma vida na sarjeta. Um empresário, uma jovem, um Zé Ninguém. Nunca foi tão banal puxar o gatilho de um revolver como nos últimos anos. Em todo o País, o crescimento da violência alcança patamares até pouco tempo inimagináveis, e Bento Gonçalves não escapa das garras da ascensão do crime. A edição de 2018 do Atlas da Violência – elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base em dados extraídos do Sistema de Informações sobre Mortalidades do Ministério da Saúde – revela um cenário ainda mais trágico do que o retratado na edição de 2017.

O levantamento anterior mostrou que, em 2014, o País bateu o recorde de violência, com uma taxa de 29,8 homicídios por 100 mil habitantes. A nova edição do Atlas da Violência de 2018 registrou mais um recorde, desta vez em 2016, com 30,3 homicídios por 100 mil. Em termos absolutos, 62.517 pessoas morreram assassinadas naquele ano. Em termos comparativos, o número anual de homicídios no Brasil é 30 vezes superior ao de toda a Europa. Esses números sombrios são o retrato de uma “crise civilizatória” vivida pelo Brasil. Em Bento, o número chegou a 34 mortes violentas nesta semana.

A atual política de drogas tem sido responsável pela morte de milhares de jovens

Trata-se de uma situação inadmissível e que demanda medidas imediatas por parte dos governos das diferentes instâncias federativas brasileiras. O primeiro passo para implementar medidas capazes de reduzir essa situação de matança que a região vive é conhecer a fundo o que está por traz dessas mortes. Considerando que o esclarecimento dos homicídios é baixíssimo no país, temos uma dificuldade imposta em relação à capacidade de se conhecer de forma mais precisa o que, afinal, tem motivado os homicídios. Nesse sentido, ao contrário do que afirmou o então ministro da Justiça e hoje ministro do STF, Alexandre de Moraes, em 2016, de que o “país precisa de menos pesquisas e mais armas”, talvez seja justamente esse tipo de produção o que pode nos ajudar a ter uma visão mais real do que está por traz dos homicídios hoje no Brasil.

Para avançar no combate aos homicídios, urge discutir o quanto e em que aspectos a atual política de drogas tem sido responsável pela morte de tantas pessoas, além de problematizar o papel da arma de fogo das discussões e conflitos interpessoais.

Bento está entrevada com disputas por território de venda de drogas e duelo de facções, que dia após dia tem ganhado mais terreno ante a defasada e insuficiente força de repressão. Nesta semana, após um latrocínio comover todo o município e outro jovem perder a vida em um residencial, recebemos alguns novos policiais temporários para auxiliar no combate a escalada das mortes. Mas o que você acha que ocorrerá quando estes homens retornarem aos seus locais de origem?

Sobre o autor

Cristiano Migon

Cristiano Migon

editoria@jornalsemanario.com.br

Deixe um comentário