Editorial

500 anos de etnocídio

Cristiano Migon
Escrito por Cristiano Migon

Em 1.500, quando o Brasil foi descoberto, nessas Terras de Vera Cruz (primeiro nome de nosso país), havia mais de 5 milhões de índios. Seria natural que no decorrer desses mais de 500 anos de história de nosso país, essa população aumentasse. No entanto, o que se observa é exatamente o contrário. Levada por um massacre histórico provocado pela violência de nossas guerras para conquista de suas terras em busca da exploração econômica e subjugação de sua cultura aos nossos costumes, essa população foi sendo dizimada e hoje, existem pouco mais de 800 mil índios, vivendo em condições precárias nas cidades e menos da metade vivendo em áreas rurais (dados do IBGE). É o que se pode chamar de etnocídio (destruição de um povo e de sua cultura) que perdura por séculos.

Atualmente, existe um arcabouço legislativo na tentativa de proteger e preservar os índios e sua cultura. Para a legislação vigente, os índios são: pessoas isoladas; em vias de integração e integrados. Os índios isolados são aqueles que não tiveram contato com a nossa cultura. Os índios em via de integração são aqueles que vivem em contato intermitente ou permanente com a nossa cultura, no entanto, conservam menor ou maior parte das condições de sua vida nativa, mas aceitam algumas práticas e modos de existência de nossa cultura da qual vão se integrando cada vez mais. Índios integrados são aqueles que estão incorporados plenamente a nossa à nossa cultura e práticas, embora conservem seus usos, costumes e tradições.

“60 pessoas de origem indígena vivem em condições alusivas à Idade das Trevas em Bento Gonçalves”.

De acordo com o censo populacional de 2010, 32% dos índios vivem em polos urbanos, em condições bastante precárias, como é o caso de Bento Gonçalves. Por aqui não é oferecido o básico da salubridade. Cerca de 60 pessoas estão em condições alusivas à Idade das Trevas, tanto no aspecto estrutural, quanto no assistencial. Isto porque, em virtude de um imbróglio jurídico entre a prefeitura, que concedeu um terreno de passagem para as famílias, e a Funai, que não pode auxiliar enquanto o local não for destinado aos indígenas, as famílias ficam desassistidas, a mercê do clima, da violência e da omissão do estado.

Para ter uma ideia do desprezo com os donos originais desta terra, em nível nacional, o analfabetismo entre os índios é de 33% (contra 9% da média nacional), 38% das crianças não têm certidão de nascimento e 53% dos adultos não têm qualquer rendimento. E aqui um dado estarrecedor: a população indígena é predominante jovem – 36% têm entre 0 e 14 anos – e o índice de suicídio, principalmente no meio adolescente, é quatro vezes superior à da população em geral, chegando a ser, em alguns lugares, como o Mato Grosso do Sul, até 34 vezes mais alto que a média. Segundo a Unicef, responsável pelo estudo, as principais causas são a discriminação sofrida por eles e os danos psicológicos advindos da expansão desenfreada das cidades e da especulação fundiária. Ao longo da primeira década do Século XXI, 563 índios foram assassinados no Brasil. E o crescimento de atos de violência contra os povos indígenas está diretamente ligado, conforme o Conselho Indigenista Missionário, à omissão por parte do Estado no processo de demarcação das terras.

É imprescindível que a sociedade brasileira lance um novo olhar para essa parcela minoritária e sofrida da população, respeitando seu direito em ser índio e de seguir suas tradições, sua organização social, seus costumes, suas línguas e crenças, propiciando plenamente, caso o desejarem, sua participação efetiva na vida política, econômica, social e cultural do Estado Brasileiro. É o que se pode chamar de pluralidade cultural que deve ser arraigada na consciência da Nação Brasileira. Índio também é gente, assim como eu e você.

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